Por que montadoras chinesas estão comprando fábricas na Europa enquanto gigantes tradicionais tentam sobreviver
A indústria automotiva europeia enfrenta excesso de fábricas, queda nas vendas e pressão chinesa, enquanto marcas asiáticas avançam sobre plantas ociosas no continente.
A frase dita por um executivo da Xpeng durante um evento do Financial Times causou desconforto imediato dentro da indústria automotiva europeia. Ao comentar uma possível fábrica da Volkswagen na Europa, Elvis Cheng, diretor-gerente da marca chinesa para o nordeste europeu, afirmou que a planta era “um pouco velha”. A observação parece simples, mas atingiu um dos símbolos mais tradicionais do setor automotivo global justamente no momento em que montadoras chinesas aceleram sua expansão internacional.
O comentário ocorreu em meio às negociações envolvendo fábricas europeias que hoje operam abaixo da capacidade. O continente enfrenta um cenário diferente daquele registrado antes da pandemia. Em 2019, o mercado europeu vendeu 15,3 milhões de veículos. Em 2025, o volume caiu para menos de 13 milhões, criando um excesso de capacidade industrial que abriu espaço para conversas antes impensáveis entre grupos europeus e chineses.
Europa tenta lidar com fábricas ociosas enquanto marcas chinesas ganham espaço
A participação das marcas chinesas no mercado da Europa Ocidental chegou a 8,6% no primeiro trimestre de 2026, praticamente o dobro do registrado um ano antes, segundo dados do analista Matthias Schmidt. O crescimento acelerado virou uma pressão adicional sobre fabricantes tradicionais, especialmente aquelas que ainda dependem de estruturas antigas e custos elevados de produção.
Enquanto Volkswagen, Ford, Nissan e Stellantis tentam reorganizar operações, marcas como BYD, Changan, Chery, Geely e Dongfeng passaram a analisar fábricas disponíveis na Europa para acelerar produção local e reduzir impactos tarifários.
- A Nissan negocia ceder parte da fábrica de Sunderland para a Chery
- A Ford teria concordado em vender parte da planta de Valencia para a Geely
- A Stellantis confirmou produção de modelos da Leapmotor em fábricas espanholas
- A BYD avança na construção de uma fábrica própria na Hungria
Executivos europeus já admitem reservadamente que as fabricantes chinesas deixaram de ser apenas concorrentes de baixo custo. Segundo relatos de bastidores citados por executivos do setor, as marcas asiáticas passaram a ameaçar inclusive segmentos premium e de luxo, onde europeias dominaram durante décadas.
Volkswagen tenta reduzir capacidade enquanto chinesas escolhem ativos
A situação da Volkswagen simboliza parte dessa mudança estrutural. Thomas Schäfer, CEO da marca Volkswagen, tentou minimizar especulações sobre venda de fábricas e chamou de “nonsense” rumores envolvendo a unidade de Dresden, na Alemanha. Ainda assim, o grupo enfrenta discussões internas sobre capacidade excedente justamente quando empresas chinesas procuram ativos industriais no continente.
O ponto sensível é que a própria Volkswagen mantém parceria tecnológica com a Xpeng e também possui participação acionária na empresa chinesa. O comentário de Cheng sobre a idade das fábricas escancarou uma inversão simbólica de forças dentro da indústria automotiva global.
“Se encontrarmos um local na Europa que funcione, um acordo ainda pode acontecer”, afirmou Elvis Cheng ao comentar a possibilidade de parceria com a Volkswagen.
Mesmo considerando acordos industriais, a Xpeng também avalia construir uma fábrica totalmente nova no continente, repetindo uma estratégia semelhante à da BYD, que prefere manter controle integral sobre suas operações.
Tarifas, subsídios e pressão política ampliam disputa industrial
A Comissão Europeia já reagiu ao avanço chinês com tarifas sobre veículos elétricos que variam entre 17% e 35,3%, alegando desequilíbrios causados por subsídios concedidos pelo governo chinês. Além disso, Bruxelas discute regras de “Made in Europe” para restringir incentivos públicos a veículos importados.
O debate ganhou força após executivos europeus passarem a defender condições equivalentes de produção. Markus Haupt, CEO de Seat e Cupra, afirmou que a disputa seria “justa” se montadoras chinesas produzissem na Europa com estruturas de custo semelhantes às enfrentadas pelas fabricantes locais.
Ao mesmo tempo, grupos chineses aceleram investimentos regionais. No Reino Unido, Gary Lan, CEO das marcas Omoda e Jaecoo, ambas ligadas à Chery, declarou que a meta é colocar as marcas entre as três maiores do mercado britânico. Segundo ele, o plano inclui expansão comercial, pesquisa local e eventual produção dentro do país.
Segundo o Noticiasautomotivas, a movimentação ocorre enquanto montadoras tradicionais ainda tentam reorganizar linhas de produção, fechar acordos industriais e enfrentar a desaceleração do mercado europeu, cenário que continua pressionando fábricas históricas espalhadas pelo continente.
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