Páscoa 2026: por que peixe e chocolate viraram o centro da celebração e do consumo no país
A comida virou a moldura principal da Páscoa. Mais do que um acompanhamento da data, ela passou a organizar o rito: o que se evita, o que se substitui, o que se repete ano após ano e o que, com o tempo, vira memória de família. No prato, convivem simbolismo religioso, hábitos culturais e uma camada moderna — comercial — que transformou o chocolate no ícone mais reconhecível da celebração.
- Abstinência de carne vermelha na Sexta-feira Santa sustenta a preferência por peixe e vegetais.
- O texto aponta razões práticas para o peixe, como acesso econômico e conservação em muitas regiões.
- Receitas simples com legumes, grãos e pescados ganharam repetição anual e valor de tradição.
- Pratos preparados apenas na Páscoa reforçam memória afetiva pelo paladar e pela partilha.
- Chocolate se consolidou como símbolo no século XX e, em 2026, divide espaço com versões artesanais.
A Páscoa sempre foi marcada pelo encontro entre fé, cultura e convivência familiar. Com o passar do tempo, a mesa deixou de ser apenas cenário e passou a funcionar como o próprio centro do evento: é ali que o passado encontra o presente, com receitas que atravessam gerações e ganham um sentido que vai além do sabor.

Em diferentes tradições culturais, o cardápio pascal reflete história, crenças e condições práticas de cada época. Essa combinação ajuda a explicar por que certos alimentos permanecem associados à data, mesmo quando o contexto religioso não é vivido com rigor por todas as famílias.
Uma das práticas mais conhecidas é a abstinência de carne vermelha durante a Sexta-feira Santa. Esse costume consolidou, em muitos lugares, a preferência por peixes, frutos do mar e pratos à base de vegetais, criando uma marca culinária da Páscoa que contrasta com outras celebrações, frequentemente associadas à fartura de carnes.
A presença do peixe, porém, não se explica apenas pela norma religiosa. Em muitas regiões, ele foi historicamente mais acessível do ponto de vista econômico e também mais fácil de conservar, o que favoreceu sua entrada nas refeições do período. Ao longo dos séculos, o que poderia parecer apenas restrição passou a ser entendido como tradição.
Esse movimento ajudou a formar um repertório de pratos que nasceram da simplicidade e se tornaram “receitas de época”. Preparações com ingredientes básicos — legumes, grãos e pescados — ganharam valor simbólico e, em muitas casas, ficaram reservadas para esse momento do calendário.
Há ainda um componente afetivo que sustenta o protagonismo da comida: o hábito de preparar determinados pratos apenas uma vez por ano. Essa raridade cria um efeito de exclusividade e reforça a ligação emocional com a data, como se o paladar funcionasse como um gatilho de lembranças que só a Páscoa sabe acionar.

Se os pratos salgados carregam a herança histórica, os doces assumiram o papel de grande atração na Páscoa moderna, especialmente para crianças e jovens. O chocolate, apesar de parecer uma tradição antiga, ganhou força como símbolo central apenas no século XX, impulsionado pela indústria e pelo apelo visual que os ovos passaram a ter.
Em 2026, o chocolate segue como o maior ícone comercial da Páscoa, mas divide espaço com versões artesanais, releituras regionais e propostas que valorizam ingredientes locais. A data mantém o mesmo eixo: a mesa como lugar de encontro, com adaptações que acompanham o tempo sem romper completamente com a ideia de rito.
Além do chocolate, muitas regiões preservam sobremesas típicas preparadas especificamente para o período. Em geral, são receitas transmitidas dentro das famílias, ligadas a ingredientes sazonais e a tradições locais que funcionam como herança cultural.
No fim, observar a Páscoa pela lente da comida é perceber uma linguagem: ela comunica partilha, memória e renovação. Mesmo quando o sentido religioso não é central para todos, o ritual de sentar à mesa continua operando como ponte entre gerações — e como o espaço em que a data, de fato, acontece.
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