Aumento de denúncias de violação de direitos em prisões de São Paulo

Youssef avalia que é preciso pensar em mecanismos de fiscalização dos ambientes de privação de liberdade, a fim de ampliar as possibilidades de acesso ao cárcere para essa fiscalização, como, por exemplo, o Mecanismo e o Comitê de Combate à Tortura no âmbito estadual, que são previstos no protocolo adicional da Convenção Contra a Tortura da ONU. Os instrumentos estavam previstos em projeto de lei, aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas foi vetado pelo governo.

São Paulo
Publicado por em 13/07/2023
Aumento de denúncias de violação de direitos em prisões de São Paulo
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O número de denúncias de violação de direitos, como torturas, castigos, maus-tratos e ameaças, sofridos por pessoas encarceradas triplicou em 2023 no estado de São Paulo. Os relatos feitos à Defensoria Pública do estado neste ano (211 casos) são 3,45 vezes maiores do que as denúncias recebidas em todo o ano passado (61).

Diego Polachini, coordenador do Núcleo Especializado de Situação Carcerária da Defensoria Pública de São Paulo, avalia que “o sistema como um todo é uma tortura”. Segundo ele, a violação de direitos dentro do cárcere não se restringe a casos pontuais, ela é sistemática, e a única solução passa pelo desencarceramento do máximo de pessoas possível.

“A vivência na cadeia já é torturante. A ideia de prender uma pessoa numa jaula evidentemente configuraria tortura em qualquer aspecto, mas como é uma pessoa que está cumprindo pena, isso não é considerado”, disse o defensor em entrevista à Agência Brasil. No momento, há apenas hipóteses para o aumento nas denúncias, conforme apontou Polachini: um aumento na intensidade das torturas e maior acesso das famílias aos meios de denúncias.

Em março deste ano, a Defensoria Pública de SP enviou para o Comitê da Organização das Nações Unidas (ONU) contra a Tortura uma análise do cumprimento pelo Brasil das regras constantes na Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, denunciando práticas violentas e inércia do estado diante dos casos.

No documento, o órgão aponta o prejuízo do veto pelo governo do estado, em 2019, ao projeto de lei que estabelecia um Mecanismo e um Comitê de Prevenção e Combate à Tortura no estado; a necessidade de investigação rápida e imparcial em casos de violência institucional; e denuncia ainda graves episódios de tortura praticados por grupos táticos prisionais.

Polachini destaca casos ocorridos durante a invasão do Grupo de Intervenção Rápida (GIR), que estão no documento. O grupo tático prisional, subordinado à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), deveria ser uma intervenção pontual para reprimir desordens nas unidades. No entanto, a defensoria avalia que o grupo se tornou presença habitual e ostensiva nos presídios, sendo protagonista de episódios corriqueiros de violência e tortura contra pessoas presas.

“Em ações regulares, normalmente eles invadem uma cadeia, quando tem alguma alegação de distúrbio ou algum preso que não quer voltar para cela, com bomba de borracha, cachorros, os presos são obrigados a ficar pelados, sendo ameaçado muitas vezes pelos cachorros muito próximos. Então é uma tortura psicológica muito severa que eles fazem”, contou o defensor.

Objetos ilícitos nas celas

Um dos episódios relatados à Organização das Nações Unidas (ONU) foi operação realizada em 2015, na Penitenciária de Presidente Prudente, para apreender possíveis objetos ilícitos nas celas. Na ocasião, cerca de 240 detidos sofreram violência física e psicológica por duas horas e meia. De acordo com o documento, mesmo sem encontrar resistência, os agentes do GIR xingaram e agrediram fisicamente os presos com socos, chutes e golpes de cassetete, além de disparos de balas de borracha em ambiente fechado.

“Vários presos sofreram lesões corporais, principalmente nas costas e nádegas, demonstrando que estavam em posição indefesa. Como se não bastasse, entre os feridos estavam um idoso e um cadeirante, o que demonstra o nível de brutalidade dos ataques”, relatou a Defensoria na análise.

O documento aponta que, além da violência institucional, outras violações sistemáticas que configuram atos de tortura no sistema prisional paulista são “a superlotação carcerária, falta de ventilação e iluminação adequadas, equipes mínimas de saúde insuficientes, falta de medicamentos, má qualidade da estrutura física dos prédios, racionamento de água, falta de água potável, falta de chuveiros quentes, limitação e ausência de banhos de sol, falta de itens de higiene pessoal e vestuário e falta de alimentação adequada e em quantidade suficiente”.

Fome

Detentos no interior de uma das celas do setor disciplinar da Penitenciária de Mirandópolis II reclamavam da falta de higiene no local, durante inspeção feita em maio de 2022  (Relatório da Defensoria Pública de São Paulo/Reprodução)
Detentos no interior de uma das celas do setor disciplinar da Penitenciária de Mirandópolis II reclamavam da falta de higiene no local, durante inspeção feita em maio de 2022 (Relatório da Defensoria Pública de São Paulo/Reprodução)

Há reclamações recorrentes sobre a quantidade da alimentação no sistema penitenciário paulista. “O medo da fome é constante no sistema carcerário, os presos vivem sob essa ameaça e passam fome constantemente aqui no estado de São Paulo. Eles precisam complementar a alimentação através do apoio familiar. Se a família não manda comida, eles reclamam que passam muita fome, que a comida não é suficiente”, revelou Polachini à Agência Brasil.

O defensor citou ainda situações conhecidas como “pena de fome”, em que irregularidades cometidas pelas pessoas encarceradas são punidas com racionamento de comida. “Eles ficam sem comer por um período ou é diminuída a comida para eles. Isso me parece uma evidente tortura”, comentou. Além disso, segundo ele, cotidianamente boa parte das unidades racionam a água, os presos muitas vezes são privados de tomar banho e passam sede constantemente.

Em relação às violências psicológicas, há denúncias de ameaças por parte dos funcionários das unidades prisionais. “Quando vai chegando perto da saída dele [para o semiaberto], os funcionários começam a ameaçar com [aplicação de] faltas graves, então ele vive uma constante tortura psicológica com medo de falar qualquer coisa, fazer qualquer coisa, e ter o direito dele a progressão de regime impedido.”

Segundo ele, há também uma tortura que é feita durante as revistas. “Tem penitenciárias específicas em que os presos, para saírem para trabalhar, por exemplo, ainda que eles estejam no regime semiaberto, eles têm que tirar a roupa todo dia”. O defensor acrescentou que, em uma das denúncias recebidas pela Defensoria, uma pessoa com deficiência era obrigada a tirar a roupa e sentar no chão em todas as saídas da cela, o que foi definido como “torturante” pelo denunciante.

Condições ideais

O defensor público Polachini ressalta que a única limitação imposta pela Justiça às pessoas encarceradas é a privação de liberdade. Diante disso, os demais direitos, garantidos a qualquer cidadão, deveriam ser garantidos também dentro do cárcere. Segundo ele, esse é o entendimento das cortes superiores e dos tribunais internacionais.

Entre as medidas consideradas básicas, estão o afastamento de guardas e agentes penitenciários envolvidos em casos de tortura, acesso a médico, melhoria na oferta de alimentação, tanto em quantidade como em qualidade, proibição do racionamento de água.

“Todos os direitos que as pessoas têm na rua, os presos deveriam ter, então direito a trabalho, a estudo, à dignidade – que abarca uma quantidade maior de direitos. Os presos têm exatamente todos os direitos de um cidadão [em liberdade]: não pode ser torturado, não pode ser agredido, não pode ser xingado, não pode ter racionamento de produtos essenciais, como água e energia elétrica”, disse.

Para ele, a melhoria das condições estruturais do sistema penitenciário passa por medidas de desencarceramento. “A única solução que eu vejo como melhoria disso é o desencarceramento. O sistema carcerário em si é feito para ser uma forma de tortura, então para reduzir a tortura só tirando pessoas lá de dentro. Então o desencarceramento da maior quantidade de pessoas possíveis para evitar que mais pessoas sofram com isso.”

Existem instrumentos atualmente que visam à redução da população carcerária, mas que não são colocadas em prática pelo judiciário. “A nossa Constituição trata a prisão como uma exceção. 40% dos presos são presos preventivos, são presos que não foram condenados ainda. A Constituição e o Código do Processo Penal, e até as recomendações do próprio CNJ e do STF, falam que a prisão antes da sentença é uma exceção”, disse.

“Muitas vezes isso infelizmente não é aplicado, principalmente, aqui no estado de São Paulo, que tem um alto índice de conversão das prisões em flagrante em prisão preventiva. Medidas alternativas à prisão preventiva poderiam ser mais aplicadas, já são completamente previstas”, acrescentou.

Ele citou o habeas corpus coletivo, concedido pelo STF em 2018, que determinou a substituição da prisão preventiva por domiciliar para gestantes, lactantes e mães de crianças de até 12 anos ou de pessoas com deficiência, em todo o território nacional. No entanto, a medida ainda apresenta dificuldade de aplicação.

“Os juízes aqui em São Paulo acabam sendo muito reticentes na aplicação disso, muitas vezes falando que só tem duas opções: a mãe cometeu o crime com a criança ou sem a criança. Se ela comete o crime com a criança, [consideram que] ela está sendo uma mãe que deixou a criança em risco. Se ela comete um crime sem a criança, [consideram que] ela já tinha abandonado filho, então não teria porque ela ter direito a prisão domiciliar”, lamentou o defensor.

Entre as recomendações do documento enviado à ONU, a Defensoria pede que o país adote medidas que garantam o afastamento cautelar de servidores públicos suspeitos de envolvimento em crimes de tortura e maus-tratos e que haja investigação célere, imparcial, eficaz e dentro de um prazo razoável dos casos.

A coordenadora auxiliar do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública de São Paulo, Surraily Youssef, avalia que a maior investigação que se faz em casos de violência cometida por agentes do estado não é da conduta do policial, por exemplo, mas da conduta da pessoa que foi presa.

“O que a gente percebe é que há ainda uma desvalorização da narrativa sobre violência das pessoas que já tiveram em algum momento algum contato com a Justiça Criminal e é essa cultura que nós precisamos reverter e combater para que aquela narrativa seja central para dar início aos mecanismos de apuração”, disse.

Ela acrescenta que os marcos institucionais, tanto nacionais como internacionais, indicam que a tortura é uma prática que sempre tem que ser vedada e todos os órgãos que têm contato com denúncias de tortura, principalmente o judiciário e o Ministério Público, devem dar encaminhamento a uma investigação de pronto.

Youssef avalia que é preciso pensar em mecanismos de fiscalização dos ambientes de privação de liberdade, a fim de ampliar as possibilidades de acesso ao cárcere para essa fiscalização, como, por exemplo, o Mecanismo e o Comitê de Combate à Tortura no âmbito estadual, que são previstos no protocolo adicional da Convenção Contra a Tortura da ONU. Os instrumentos estavam previstos em projeto de lei, aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas foi vetado pelo governo.

“O [João] Doria vetou em 2019 o projeto, que instituía o Mecanismo e o Comitê Estadual, que poderiam acessar os espaços de privação de liberdade. E não só o cárcere, há denúncias de violência em comunidades terapêuticas, em hospitais psiquiátricos, em casas de repouso, então é importante a gente ampliar, e a existência do mecanismo e do comitê permitiria a realização de inspeções nesse espaço prisional”, disse.

Ela acrescenta que, quando existe uma abertura para fiscalização desses espaços de privação de liberdade, é possível não só registrar as práticas de tortura, mas também pensar em recomendações para que elas sejam superadas.

Outro lado

A Secretaria da Administração Penitenciária divulgou que não tolera quaisquer desvios de conduta por parte de seus funcionários e adota medidas rigorosas para lidar com denúncias de tortura ou condutas semelhantes. Quando uma denúncia é feita, o servidor é investigado e, se comprovada a acusação, é afastado e punido de acordo com a legislação vigente. A secretaria ressalta que existem canais específicos para receber denúncias, como a Ouvidoria e a Corregedoria Administrativa do Sistema Penitenciário, garantindo o sigilo do denunciante.

No que diz respeito à alimentação, a SAP esclarece que são fornecidas pelo menos três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar). As refeições são balanceadas e seguem um cardápio elaborado previamente por nutricionistas. Além disso, não há falta de água nas unidades da SAP. Todos os presídios seguem as diretrizes da Organização Mundial de Saúde, que estabelece um consumo mínimo per capita de 100 litros diários de água.

Para lidar com a questão da superlotação carcerária, a secretaria informa que planeja entregar três novas unidades prisionais nos municípios de Aguaí, Riversul e Santa Cruz da Conceição ainda este ano, o que resultará em um total de 2.469 vagas adicionais. O governo de São Paulo também incentiva o Poder Judiciário a adotar penas alternativas e promove mutirões para agilizar os processos. Nos últimos dez anos, o número de vagas no sistema penitenciário do estado foi ampliado em 40,12%.

*Com informações da Agência Brasil.

Alan Correa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.

Leia mais em São Paulo

Kathyn Carvalho apresenta espetáculo sobre transtorno borderline no Centro da Terra, em São Paulo
São Paulo
Espetáculo F60.3 Hoje Eu Estou Sentindo Muito, com Kathyn Carvalho, chega ao Centro da Terra, em São Paulo, nos dias 22 e 23 de outubro, às 20h, com dança contemporânea e...
Feira da Mulher reúne empreendedorismo, artesanato e gastronomia neste domingo
São Paulo
Evento acontece no dia 27 de setembro, das 10h às 16h, e reúne diferentes expositoras; entre as participantes está a artesã Vera Lucia Peres, que transforma dedicação,...
Pedido de reparo em rua de Perus chama atenção para a importância da manutenção das vias
São Paulo
Em 2024, moradores de Perus pediram o reparo de um buraco na Rua Antônio Cândido de Alvarenga. Um ofício encaminhou a demanda à Prefeitura, mas não confirma se o serviço foi...
Sandra Santana lança “Minha Jerusalém é Aqui” na Câmara Municipal de São Paulo nesta sexta-feira (11)
São Paulo
Sandra Santana lança nesta sexta-feira (11), na Câmara Municipal de São Paulo, o livro “Minha Jerusalém é Aqui”, obra sobre fé, política e sua trajetória...
Sandra Santana: da gestão pública à disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo
São Paulo
Sandra Santana, vereadora de São Paulo e candidata a deputada estadual pelo MDB, construiu trajetória na gestão pública, nas subprefeituras e na liderança da CCJ paulistana....
De rua em rua: registros mostram intervenções associadas ao mandato de Sandra Santana na região de Perus
São Paulo
Em Perus, diferentes intervenções urbanas registradas ao longo do território evidenciam uma atuação voltada a resolver problemas concretos e melhorar a qualidade de vida da...

Últimas novidades

Lula vira o jogo, vence Flávio Bolsonaro e é eleito presidente pela quarta vez
Política
O resultado garantiu a Lula o quarto mandato como presidente da República. Ele já havia vencido as eleições de 2002, 2006 e 2022 e, com a vitória de 2026, amplia uma...
Corpo Vivo: experiência somática com Wagner da Rocha estreia na Tenda de Lendas no dia 31 de outubro
Mairiporã
Corpo Vivo — Experiência Somática terá pré-estreia em 31 de outubro de 2026, às 20h, na Tenda de Lendas, reunindo teatro, música, movimento e práticas de consciência...
Outubro Rosa: estação Francisco Morato recebe ação de saúde da mulher nesta sexta-feira (23)
Francisco Morato
Campanha Outubro Rosa leva atendimento informativo à estação Francisco Morato, da Linha 7-Rubi, nesta sexta-feira (23), das 10h às 16h, com orientações sobre saúde da...
Dia Internacional das Meninas 2026: Brasil celebra pela primeira vez data criada por lei enquanto milhões de meninas ainda enfrentam violência e casamento infantil
Cotidiano
Dia Internacional das Meninas, celebrado em 11 de outubro, destaca direitos à educação, proteção contra violência, combate ao casamento infantil e igualdade de oportunidades...
Fundação The Caring Family Foundation realiza formação sobre direitos das meninas e prevenção da violência para 65 estudantes de escola pública de Caieiras, em São Paulo
Caieiras
Fundação The Caring Family Foundation promove encontros sobre direitos das meninas e prevenção da violência para 65 alunas de escola pública de Caieiras, na Vila Rosina,...
Eleições 2026 chegam ao último dia de campanha com disputa presidencial acirrada
Política
Lula e Flávio Bolsonaro concentram a disputa pela Presidência às vésperas da votação; pesquisas divulgadas neste sábado mostram diferenças dentro ou próximas das margens...

Jornal Fala Regional

Nosso objetivo é levar conteúdo de forma clara, sem amarras e de forma independente a todos. Atendemos pelo jornal impresso as cidades de Caieiras, Franco da Rocha, Francisco Morato, Mairiporã e Cajamar, toda sexta-feira nas bancas. Pela internet o acesso é gratuito e disponível a todos a qualquer momento, do mundo inteiro.

Vamos Bater um Papo?