Angelita Gama morreu aos 92 anos em São Paulo: Referência mundial em coloproctologia, a médica acumulou pioneirismos, prêmios internacionais e contribuições reconhecidas no tratamento do câncer
Internada desde 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Angelita construiu uma trajetória marcada pela superação de barreiras impostas às mulheres na medicina e pela inovação científica.
A medicina brasileira perdeu uma de suas figuras mais influentes. Angelita Habr-Gama morreu aos 92 anos após permanecer internada desde o dia 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. A causa da morte não foi divulgada.
Reconhecida internacionalmente por suas contribuições à coloproctologia e à pesquisa do câncer colorretal, Angelita construiu uma carreira que atravessou décadas e ajudou a redefinir protocolos médicos adotados em diversos países. Seu nome tornou-se sinônimo de inovação científica, formação de profissionais e defesa da presença feminina em áreas tradicionalmente dominadas por homens.
Da Ilha de Marajó à Faculdade de Medicina da USP
Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, Angelita chegou a São Paulo ainda criança após a família decidir deixar a região Norte. O episódio foi motivado pela morte de seu irmão Nader, vítima de apendicite supurada, fato que marcou profundamente os pais.
Anos depois, enfrentou resistência dentro da própria família ao anunciar o desejo de cursar Medicina. O pai preferia que ela seguisse a carreira de professora. A decisão, porém, não mudou. Em 1952, foi aprovada para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Ao concluir a graduação, encontrou novas barreiras. Em uma época em que a cirurgia era vista quase exclusivamente como profissão masculina, ouviu de um responsável pela seleção da residência médica que acabaria abandonando a carreira para formar família. A resposta veio no concurso: Angelita conquistou o primeiro lugar e tornou-se a primeira mulher a fazer residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP.
Uma trajetória marcada por pioneirismos

Depois da residência, decidiu aprofundar os estudos em doenças intestinais e buscou uma vaga no Hospital St. Marks, em Londres, instituição considerada referência mundial na especialidade.
Inicialmente rejeitada porque o hospital aceitava apenas homens, insistiu por meio de sucessivas cartas até ser admitida. Em 1962, tornou-se a primeira mulher aceita pela instituição britânica.
- Primeira mulher na residência de cirurgia do Hospital das Clínicas da USP.
- Primeira mulher admitida no Hospital St. Marks, em Londres.
- Primeira mulher a chefiar o Departamento de Cirurgia da USP.
- Primeira mulher a receber a medalha Bigelow da Sociedade de Cirurgia de Boston.
De volta ao Brasil, retomou suas atividades na Universidade de São Paulo e assumiu posições de liderança acadêmica. Também teve papel importante para o reconhecimento da coloproctologia como especialidade médica independente.
Pesquisa que mudou protocolos internacionais
A contribuição científica mais conhecida de Angelita surgiu a partir de estudos desenvolvidos sobre câncer de reto. Na década de 1990, ela e sua equipe passaram a defender uma abordagem diferente da adotada tradicionalmente.
O protocolo conhecido internacionalmente como “Watch and Wait” propõe acompanhar determinados pacientes após quimioterapia e radioterapia, evitando cirurgias quando não há mais sinais da doença.
A estratégia trouxe impacto significativo na qualidade de vida de muitos pacientes, reduzindo procedimentos invasivos que frequentemente resultavam na necessidade permanente de bolsas de colostomia.
O reconhecimento internacional veio em diversas formas. Em 2022, Angelita foi incluída pela Universidade de Stanford entre os profissionais que mais contribuíram para o avanço da ciência. No ano seguinte, recebeu a medalha Bigelow, uma das maiores distinções da cirurgia mundial, revelou o Estadao.
| Nome | Angelita Habr-Gama |
| Idade | 92 anos |
| Especialidade | Coloproctologia |
| Universidade | USP |
| Reconhecimento internacional | Medalha Bigelow e destaque da Universidade de Stanford |
Em 2024, o protocolo desenvolvido por Angelita foi incorporado às diretrizes da Sociedade Americana de Oncologia Clínica para tratamento do câncer de reto avançado. A inclusão marcou a primeira vez que contribuições de médicos latino-americanos passaram a integrar oficialmente essas recomendações internacionais, ampliando ainda mais a presença de seu trabalho na prática médica adotada em diferentes partes do mundo.

Leia mais em Saúde e Bem-Estar
Últimas novidades



















