Fantástico Hoje mostra como comerciantes viram reféns de traficantes e milícias no RJ
Uma investigação revelou que comerciantes do Rio de Janeiro são pressionados a comprar mercadorias de fornecedores indicados por grupos criminosos, sob ameaça de represálias.
O domínio territorial exercido por facções criminosas e milícias em partes do Rio de Janeiro avançou para uma atividade menos visível do que a disputa armada por áreas da cidade. Segundo uma investigação exibida pelo Fantástico, grupos criminosos passaram a controlar a cadeia de abastecimento de estabelecimentos comerciais, determinando quais empresas podem fornecer produtos para mercados, padarias, depósitos e outros negócios.
A prática cria um monopólio informal em diversas comunidades e bairros sob influência dessas organizações. Comerciantes relatam que perderam a liberdade de escolher fornecedores e passaram a receber ordens sobre onde comprar itens essenciais para manter os estabelecimentos funcionando.
Produtos básicos entram na rota do controle criminoso
Os relatos reunidos pela reportagem mostram que o esquema alcança mercadorias presentes diariamente na rotina dos consumidores. Entre os produtos citados estão farinha de trigo, ovos, alho, cebola, carvão, água, gás e materiais de construção.
Segundo comerciantes ouvidos durante a investigação, caminhões de empresas concorrentes são impedidos de entrar em determinadas regiões. Motoristas recebem ameaças e, em alguns casos, são alertados sobre possíveis roubos de carga ou ataques aos veículos caso insistam em retornar aos locais.
“Tem que comprar, sem escolha”, relatou um comerciante ao descrever a imposição dos fornecedores determinados pelos grupos criminosos.
Em muitos casos, os empresários afirmam que recebem apenas a informação de que, dali em diante, só poderão adquirir mercadorias de uma empresa específica.
Impacto chega ao bolso do consumidor
A restrição da concorrência afeta diretamente os preços cobrados ao consumidor final. Um dos exemplos apresentados envolve a comercialização de frango assado na Zona Oeste do Rio.
Segundo os relatos, após a entrada de distribuidores ligados ao esquema, o valor do produto teria saltado de R$ 10 para R$ 40 em algumas localidades. A mesma lógica foi observada em outros segmentos.
- Comerciantes relatam compra obrigatória de determinados fornecedores.
- Empresas concorrentes enfrentam restrições para atuar em áreas dominadas.
- Produtos chegam aos estabelecimentos por valores mais altos.
- Consumidores acabam absorvendo parte dos aumentos nos preços finais.
A farinha de trigo aparece entre os principais focos das investigações. Proprietários de padarias afirmam que foram obrigados a adquirir produtos de qualidade inferior por valores acima dos praticados normalmente pelo mercado.
Segundo um dos depoimentos exibidos, sacos de farinha avaliados em cerca de R$ 70 eram revendidos entre R$ 100 e R$ 110. O aumento, de acordo com os comerciantes, acaba refletindo diretamente no preço do pão francês.
Polícia amplia investigação sobre empresas e depósitos
Durante o trabalho de apuração, foram monitorados centros de distribuição e armazéns ligados às empresas investigadas. A Polícia Civil cumpriu recentemente 14 mandados de busca e apreensão relacionados ao caso.
Em uma das ações, agentes encontraram produtos fora da validade e efetuaram uma prisão em flagrante. Em outro endereço, foram identificadas condições consideradas inadequadas para armazenamento de alimentos, incluindo produtos mantidos próximos a fezes de animais.
As empresas citadas negam envolvimento com organizações criminosas. A Evolução informou, por meio de seus representantes, que não poderia comentar imagens sem acesso prévio ao material. Já a Fênix declarou não possuir qualquer vínculo com facções ou organizações ilícitas e afirmou estar à disposição das autoridades.
As investigações também analisam o assassinato do comerciante Rafael Oliveira Braga, morto em frente à própria padaria após, segundo as apurações, recusar-se a comprar farinha de uma distribuidora apontada como parte do esquema. Dois homens identificados pela polícia como integrantes da milícia foram indiciados pelo crime. Enquanto os inquéritos avançam, comerciantes seguem relatando medo, prejuízos financeiros e dificuldades para manter seus negócios em funcionamento sob a pressão de grupos armados que ampliaram sua influência para além do controle territorial.

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