Marília Mendonça detonou o termo “feminejo”, bateu de frente com o mercado e mudou tudo

Antes vista apenas como compositora de bastidor, Marília Mendonça virou o jogo do sertanejo ao cantar o que vivia e denunciar o machismo sem militância explícita. Rejeitou o termo “feminejo”, bateu de frente com gravadoras e radialistas, e deu voz a uma geração que hoje domina rankings e prêmios. Seu legado é visceral, direto e sem rótulos, abrindo espaço onde antes só cabiam os homens.

Personalidade
Publicado por em 5/08/2025

Quando Marília Mendonça surgiu com “Infiel” em 2016, as rádios brasileiras ainda viviam sob domínio masculino. Dois anos antes, entre as dez músicas sertanejas mais tocadas, não havia uma voz feminina sequer. A chegada de Marília não apenas rompeu essa lógica como também deu início a uma transformação estrutural: mulheres passaram a cantar as próprias dores, com letras realistas, diretas e sem filtro.

Pontos Principais:

  • Marília Mendonça recusava o termo “feminejo” por considerá-lo segregador.
  • Antes do sucesso como cantora, já era compositora com mais de 150 músicas gravadas.
  • Suas letras abordavam traição, relações abusivas e vozes marginalizadas.
  • Marília enfrentou o machismo das rádios e do mercado musical com autenticidade.
  • Artistas como Simone Mendes e Mari Fernandez reconhecem seu legado como essencial.

No entanto, o nome dado a esse movimento pela imprensa — “feminejo” — a incomodava profundamente. Para Marília, o rótulo criava uma separação injusta. Em uma reunião com a gravadora, chegou a se revoltar: “Existe rock feminino? Existe MPB feminina? Então por que sertanejo tem que ser diferente?”. Ela queria o mesmo espaço dos homens, não um reservado às mulheres.

Simone, Marília Mendonça e Simaria em foto para single de 2019 — Foto: Kendy Higashi/Divulgação
Simone, Marília Mendonça e Simaria em foto para single de 2019 — Foto: Kendy Higashi/Divulgação

A reação à sua entrada no mercado não foi suave. Empresários e radialistas diziam que “mulher não pede música de mulher”, e que vozes femininas derrubariam a audiência. Mas “Infiel” mostrou o contrário: entrou nas mais pedidas em uma semana, virou fenômeno nacional e forçou as gravadoras a buscar mais mulheres com voz, história e autenticidade.

Antes do sucesso no palco, Marília era bastidor. Com mais de 150 composições gravadas por outros artistas, escrevia o que queria ouvir como mulher — mesmo quando eram homens que cantariam. “Ela queria colocar na boca dos cantores o que nós gostaríamos de escutar”, contou o compositor Vinicius Poeta, destacando a coragem de letras como “Cuida bem dela”, que jamais teriam partido de um homem.

O estilo único, depois apelidado de “mariliônico”, misturava dor, sarcasmo e força. Ninguém mais consegue cantar “Amante não tem lar” sem ser julgado — mas com Marília, a canção era entendida como catarse coletiva. Ela conquistava tanto a elite quanto o público popular, porque colocava sentimentos universais em letras que pareciam saídas de conversas reais.

No início da fama, Marília chegou a dizer que não era feminista, afirmando que o movimento diminuía a mulher e negando ter sofrido machismo. Foi só com o tempo e a vivência que passou a reconhecer as estruturas que a oprimiam. Em entrevistas posteriores, admitiu o sexismo do mercado sertanejo e preferiu mostrar sua resistência com exemplos práticos, como sua própria história.

E essa resistência aparecia nas músicas. Em “Troca de Calçada”, Marília dava voz a uma mulher marginalizada pela sociedade. Em “Você Não Manda Em Mim”, denunciava a violência emocional de um relacionamento abusivo. Suas letras não pediam licença nem faziam rodeios — eram documentos emocionais de vidas femininas reais.

Simone Mendes, amiga e parceira de palco, resumiu bem o espírito de Marília: “Ela chegou com a voz, com a doçura, com a beleza e disse: ‘Eu vou tomar a minha cachaça, usar a roupa que quiser, e esse é o meu corpo. Quem quiser gostar, que goste’”. Essa postura abriu portas para outras artistas serem exatamente quem são, sem disfarces.

O legado de Marília se espalhou. Mari Fernandez, chamada no início de “Marília Mendonça do piseiro”, reconhece que só chegou ao topo graças ao caminho aberto pela artista. Simone Mendes, após encerrar a dupla com Simaria, buscou a equipe de Marília — inclusive o produtor Eduardo Pepato — para sua nova fase solo. O resultado foi “Erro Gostoso”, hit que carrega a mesma assinatura emocional.

Mais do que dar voz às mulheres, Marília mostrou que elas já tinham voz — só faltava o microfone. E com ele nas mãos, ela não apenas cantou, mas transformou um gênero. Sem se curvar a modismos, sem aceitar rótulos, e sem jamais perder a verdade.

Com informações de g1.

Bianca Ludymila Peres Corrêa
Bianca Ludymila Peres Corrêa
Jornalista (MTB 0081969/SP) dedicada à cobertura de temas regionais e nacionais, atua com olhar atento ao cotidiano, política e sociedade. Produz conteúdo claro, informativo e relevante para diferentes públicos.

Leia mais em Personalidade

Sérgio Reis, publicitário criador do “Bicho do Paraná”, morreu aos 87 anos
Personalidade
Sérgio Reis, criador de campanhas históricas do Bamerindus e responsável por slogans que marcaram época, morreu aos 87 anos em Curitiba. O publicitário deixou influência...
Sheila Mello voltou aos holofotes neste fim de semana ao aparecer ao lado da filha, Brenda Scherer
Personalidade
Brenda Scherer, filha de Sheila Mello e Fernando Scherer, apareceu mais alta que a mãe em evento no Ibirapuera e protagonizou uma cena que rapidamente repercutiu nas redes...
Madonna na Copa: os bastidores do espetáculo que desafia a Fifa
Personalidade
A preparação para o primeiro show de intervalo da história das Copas do Mundo ganhou um novo capítulo após relatos de que Madonna apresentou uma série de exigências para...
Quem é Diogo Defante da Caze TV e por que o humorista voltou ao centro das atenções durante a Copa do Mundo
Personalidade
O nome de Diogo Defante voltou aos assuntos mais comentados após relatos de uma suposta detenção nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo de 2026. O episódio reacendeu o...
Oliver Tree morreu em queda de helicóptero: Cantor está entre as vítimas de acidente aéreo no RJ
Personalidade
O acidente envolvendo dois helicópteros no Rio de Janeiro matou seis pessoas neste domingo. Entre as vítimas está o cantor norte-americano Oliver Tree, que estava na cidade...
Papa Leão XIV, em visita à Espanha, disse: “Todos nós somos migrantes”
Personalidade
O papa Leão XIV encerrou sua visita à Espanha com um encontro com migrantes em Tenerife. A passagem pelas Ilhas Canárias deu visibilidade à rota atlântica, marcada por...

Últimas novidades

Senado aprova Pix Pensão para automatizar pagamento de pensão alimentícia
Direito e Leis
Pix Pensão poderá automatizar depósitos, alcançar processos antigos e bloquear ativos quando não houver saldo, mas a medida ainda depende de sanção...
ECO VIC Panorama avança em Franco da Rocha com apartamentos de dois dormitórios e lazer completo
Franco da Rocha
A VIC Engenharia avança com o ECO VIC Panorama, em Franco da Rocha, empreendimento com apartamentos de dois dormitórios, varanda, garagem e estrutura de lazer completo na...
Janja explica viagens oficiais e rebate críticas sobre gastos públicos: “misoginia pura”
Política
Janja rebate críticas sobre viagens e gastos, explica compromissos internacionais e afirma que a fama de "gastadeira" faz parte de uma ofensiva política contra...
Francisco Morato leva saúde e assistência social para perto dos moradores; veja como foi o evento do último sábado
Francisco Morato
Moradores encontraram atendimentos públicos, atividades para crianças, feira de adoção e espaço para apresentar demandas durante ação em Francisco...
Jundiaí abre licitação para construir Terminal Novo Horizonte
Jundiaí
A licitação do Terminal Novo Horizonte avança após anos de espera, enquanto Jundiaí renova a frota e inicia reformas em sete terminais...
Festa de Agosto “300+1” terá caminhada religiosa, pontos de hidratação, encontro com fiéis do Parque Payol e bênção solene do padre Hélio Marcos
Pirapora do Bom Jesus
A Caminhada do Carro de Boi abre a Festa de Agosto "300+1" com um percurso de fé entre o Santuário do Senhor Bom Jesus e a Capelinha do...

Jornal Fala Regional

Nosso objetivo é levar conteúdo de forma clara, sem amarras e de forma independente a todos. Atendemos pelo jornal impresso as cidades de Caieiras, Franco da Rocha, Francisco Morato, Mairiporã e Cajamar, toda sexta-feira nas bancas. Pela internet o acesso é gratuito e disponível a todos a qualquer momento, do mundo inteiro.

Vamos Bater um Papo?