Papa Leão XIV, em visita à Espanha, disse: “Todos nós somos migrantes”
O papa Leão XIV encerrou sua visita à Espanha com um encontro com migrantes em Tenerife. A passagem pelas Ilhas Canárias deu visibilidade à rota atlântica, marcada por recorde de chegadas e milhares de mortes.
O papa Leão XIV encerrou sua visita de uma semana à Espanha com um encontro com migrantes em Tenerife, nas Ilhas Canárias, uma das rotas mais perigosas de entrada na Europa. Ao afirmar que, de certa forma, todos são migrantes, o pontífice colocou no centro da viagem um tema que atravessa governos, fronteiras, igrejas e famílias: o deslocamento forçado de pessoas que deixam seus países por guerra, pobreza, violência, corrupção ou falta de perspectiva.
A passagem pelo arquipélago espanhol teve peso simbólico e político. Localizadas na costa oeste da África e a mais de mil quilômetros da Espanha continental, as Ilhas Canárias se tornaram uma das principais portas de entrada para migrantes que tentam chegar ao continente europeu pelo Atlântico. A travessia costuma ser feita em embarcações pequenas, improvisadas e superlotadas, em uma rota marcada por naufrágios, desaparecimentos e resgates em condições extremas.
Recorde de chegadas e milhares de mortes
Segundo dados oficiais citados na cobertura, as Ilhas Canárias receberam 46.843 migrantes irregulares em 2024. O número contrasta com o patamar registrado em 2015, quando as chegadas ficaram abaixo de mil pessoas.
O dado mais duro, no entanto, está nas mortes. De acordo com a ONG Caminando Fronteras, mais de 3.000 pessoas morreram em 2025 tentando chegar ao arquipélago.
A visita de Leão XIV ocorre em meio a esse cenário. Nos últimos meses, o pontífice tem adotado tom mais direto em críticas à condução de temas globais, especialmente quando trata da resposta internacional às migrações.
Papa cobra rotas legais e seguras
Durante a viagem, o papa pediu caminhos legais e seguros para a imigração, cooperação internacional contra o tráfico de pessoas e financiamento para resgates de migrantes em perigo no mar.
A cobrança foi além da gestão de fronteiras. Leão XIV afirmou que o mundo precisa agir sobre as causas que obrigam pessoas a deixar suas casas, como pobreza, guerras e corrupção.
No Parlamento espanhol, na segunda-feira, 8 de junho, o pontífice disse que a falta de ajuda aos migrantes desafia os fundamentos éticos da ordem internacional. Na quinta-feira, 11 de junho, voltou ao tema ao defender políticas migratórias que não se limitem a estatísticas, reforço de fronteiras ou lamentos depois das mortes.
- Criação de vias legais e seguras para imigração;
- Cooperação internacional contra o tráfico de pessoas;
- Financiamento para resgates no mar;
- Ações contra pobreza, guerras e corrupção nos países de origem;
- Tratamento digno a migrantes, independentemente da origem.
Relato de migrante marcou encontro
No encontro em Tenerife, o migrante nigeriano Bousso Diouf falou ao papa sobre o que significa deixar para trás a própria terra. Ele afirmou que ninguém abandona sua família, suas raízes e suas memórias quando pode viver em paz.
A fala sintetizou o tom do evento, voltado menos à disputa burocrática sobre entradas e permanências e mais à experiência concreta de quem atravessa fronteiras em busca de sobrevivência.
Juan Carlos Lorenzo, coordenador da Comissão Espanhola para Refugiados nas Ilhas Canárias, classificou a visita como um marco significativo. Para ele, a presença do papa reforça a defesa dos direitos humanos, da dignidade e do respeito a pessoas migrantes.
Espanha mantém postura mais aberta, mas enfrenta pressão
A Espanha tem adotado uma posição mais aberta que a de parte da Europa no tratamento da população migrante. O país implementou um programa para conceder residência a mais de meio milhão de pessoas sem documentos.
A medida, porém, enfrenta críticas de lideranças da ultradireita e dificuldades administrativas. Milhares de pessoas seguem em situação migratória indefinida enquanto aguardam o andamento de processos legais.
| Dado | Informação |
|---|---|
| Local da visita | Tenerife, Ilhas Canárias |
| Chegadas em 2024 | 46.843 migrantes irregulares |
| Mortes em 2025 | Mais de 3.000 na tentativa de chegar ao arquipélago |
| Distância da Espanha continental | Mais de 1.000 quilômetros |
| Programa espanhol | Residência para mais de meio milhão de pessoas sem documentos |
Segundo a CNN, a visita de Leão XIV terminou nas Ilhas Canárias após passagens por outras duas etapas na Espanha. O debate aberto pelo pontífice segue agora sobre governos europeus, organizações humanitárias e autoridades espanholas, enquanto a rota atlântica continua recebendo embarcações de migrantes em direção ao arquipélago.

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