Leitura longa, nota alta: estudo aponta que páginas “de verdade” puxam o desempenho em matemática e ciências
O hábito de leitura aparece como um divisor de águas nas notas de adolescentes: um estudo do Iede com a plataforma Árvore, baseado nos microdados do Pisa 2018, indica que quem encara textos com mais de 100 páginas tem mais chance de atingir níveis elevados de proficiência em leitura e também de ir melhor em matemática e ciências — com impacto direto na vida escolar e no futuro de trabalho.
A fotografia do levantamento é dura, mas não é abstrata. Ela cabe na rotina de qualquer casa em que a mochila chega pesada e a atenção chega cansada. No fim do dia, há quem consiga abrir um livro e ficar ali, no silêncio que a leitura pede. E há quem só consiga o “tamanho de um post”, porque a escola não puxou, a família não conseguiu, a tela ganhou, ou tudo isso junto. O estudo joga luz nessa diferença e mostra que ela aparece no boletim.
📚 O que os números mostram no Pisa

A análise compara o tamanho do texto mais longo lido no ano letivo com o desempenho dos estudantes na avaliação internacional. O Pisa é aplicado a alunos de 15 e 16 anos e mede competências em leitura, matemática e ciências.
No grupo que disse ter lido textos com mais de 100 páginas, 29% atingiram pelo menos o nível 4 de proficiência em leitura. Já entre os estudantes que afirmaram que o texto mais longo do ano tinha uma página ou menos, só 5% chegaram ao mesmo patamar.
A diferença também aparece quando a régua muda: em vez de olhar só leitura, a análise observa quem alcança um bom nível nas três áreas de uma vez.
| Perfil de leitura (texto mais longo no ano) | Leitura: ao menos nível 4 | Leitura + Ciências + Matemática: ao menos nível 3 |
|---|---|---|
| Mais de 100 páginas | 29% | 33% |
| Uma página ou menos | 5% | 6% |
🧠 Por que leitura “puxa” as outras matérias
Quando a leitura vira rotina, ela faz um trabalho invisível: treina o cérebro para aguentar um raciocínio que não cabe em uma frase. Matemática e ciências pedem exatamente isso — interpretar enunciado, seguir passos, manter foco, checar se o resultado faz sentido. Quem lê pouco costuma sofrer antes mesmo de errar a conta: tropeça no texto, perde a lógica no meio, desiste cedo.
O estudo, do jeito que está descrito, não vende milagre. Ele aponta um padrão: é raro um estudante atingir níveis altos de proficiência em leitura sem ter hábito leitor. Em sala, isso se traduz no aluno que atravessa uma prova sem “se afogar” no enunciado e no aluno que, no meio da página, já está procurando o fim — não porque é preguiçoso, mas porque não foi treinado para sustentar a atenção.
“É raro um estudante atingir níveis elevados de proficiência em leitura sem ter um bom hábito leitor”, aponta o estudo.
🇧🇷 Brasil no retrato: pouco texto longo, muita consequência
Entre os 79 países avaliados no Pisa 2018, o Brasil aparece como o país com maior índice de estudantes que disseram que o texto mais longo lido no ano tinha uma página ou menos: 19,6%. Nos países da OCDE, a média é 5,5%.
Na América do Sul, o recorte também chama atenção: o Brasil tem o menor índice de estudantes que declararam ter lido mais de 100 páginas no ano, com 9,5%. No mesmo levantamento, o Chile aparece com 64%, enquanto Argentina registra 25,4% e a Colômbia, 25,8%.
💼 O elo com renda e emprego juvenil
O estudo ainda faz um cruzamento com indicadores sociais e econômicos: ao observar respostas de questionários do Pisa de 2000 e 2009 e relacionar com PIB per capita e desemprego entre jovens de 15 a 24 anos, a análise aponta que países com maior PIB per capita e menor desemprego juvenil tendem a ter jovens com melhor hábito leitor.
A hipótese colocada é direta: se os jovens leem mais e melhor, podem se preparar melhor para o mercado de trabalho — e isso, em cadeia, ajuda a puxar produtividade e renda. Não é uma varinha mágica, mas é um lembrete incômodo: o país que lê pouco paga a conta em silêncio, anos depois, na forma de oportunidades menores e portas mais estreitas.
🧩 O que esse dado vira na vida real
Na prática, a notícia não é “leia e tudo se resolve”. A notícia é: a leitura longa parece estar funcionando como um tipo de musculação da mente — e quem não tem acesso a esse treino chega no Pisa (e na vida) com desvantagem.
- Leitura melhora quando o aluno sustenta atenção por mais tempo
- Matemática cresce quando o enunciado deixa de ser um obstáculo
- Ciências avança quando o estudante consegue seguir explicações e relações de causa e efeito
No fim, os números não estão falando de “gosto pessoal”. Estão falando de formação. E, no Brasil, essa formação ainda parece curta demais para a quantidade de mundo que a gente exige que um adolescente enfrente.
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