Ela tinha decisão da Justiça, mas morreu sem receber remédio garantido pelo SUS

Uma paciente de 33 anos morreu sem receber um medicamento contra leucemia já incorporado ao SUS e garantido por decisão judicial. O caso motivou denúncia à Procuradoria-Geral da República.

Saúde e Bem-Estar
Publicado por em 30/05/2026
Ela tinha decisão da Justiça, mas morreu sem receber remédio garantido pelo SUS

A morte de uma paciente de 33 anos reacendeu o debate sobre o acesso a medicamentos oncológicos já incorporados ao Sistema Único de Saúde. Embora o tratamento estivesse aprovado pelo governo federal e respaldado por decisão judicial, o remédio não chegou a tempo.

Larissa Amorim morreu em 14 de maio após enfrentar uma longa batalha contra a leucemia. Entre a intimação da União para fornecer imediatamente o medicamento indicado pelos médicos e sua morte passaram-se 59 dias. Durante esse período, a imunoterapia considerada essencial para o tratamento nunca foi entregue.

O caso levou a Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) a protocolar representação na Procuradoria-Geral da República pedindo investigação sobre atrasos no acesso a terapias já incorporadas ao SUS. Segundo a entidade, o problema ultrapassa situações isoladas e revela falhas estruturais na assistência farmacêutica oncológica.

Quando a aprovação não significa acesso imediato

A incorporação de um medicamento ao SUS ocorre após análises técnicas sobre eficácia, segurança, custo-benefício e impacto financeiro conduzidas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS.

Após a aprovação, a legislação estabelece prazo de até 180 dias para que a rede pública organize aquisição, protocolos clínicos e distribuição. No entanto, entidades de pacientes afirmam que grande parte dos entraves surge justamente nessa etapa.

Segundo a Abrale, dificuldades relacionadas à definição de responsabilidades de compra, financiamento e logística continuam retardando a chegada dos medicamentos aos pacientes.

“Há pacientes morrendo antes de receber medicamentos aos quais já têm direito”, afirma a Associação Brasileira de Câncer do Sangue.

Atualmente, a entidade acompanha 185 pacientes com dificuldades para acessar terapias já incorporadas. Em 2025, 46,49% dos atendimentos realizados pelo serviço sociojurídico da associação envolveram problemas de acesso ao tratamento. Desses casos, 85% eram pacientes atendidos pelo SUS.

O caso de Larissa Amorim

Diagnosticada ainda na infância com leucemia mieloide crônica, Larissa conviveu com a doença por mais de duas décadas. Natural da Bahia, realizava tratamento em São Paulo e conseguiu manter a enfermidade controlada durante anos.

Em julho de 2025, porém, o quadro evoluiu para uma forma agressiva da doença. Os tratamentos disponíveis não conseguiram conter a progressão, levando os médicos a indicarem o uso do blinatumomabe, imunoterapia já incorporada ao SUS.

A estratégia médica previa utilizar o medicamento como etapa fundamental antes de um transplante de medula óssea.

Sem acesso ao remédio, a família buscou auxílio judicial. Após recursos, conseguiu decisão de urgência determinando o fornecimento imediato. A União foi intimada em março de 2026.

O medicamento, entretanto, não chegou.

Durante a espera, os médicos precisaram recorrer novamente a um protocolo intensivo de quimioterapia. Larissa desenvolveu uma infecção grave, foi intubada e morreu semanas depois.

Ela deixou dois filhos, Benjamin, de 8 anos, e Sofia, de 7.

Outros pacientes enfrentam a mesma situação

Na representação encaminhada à Procuradoria-Geral da República, a Abrale relata outros casos semelhantes envolvendo medicamentos como blinatumomabe, brentuximabe e ponatinibe.

Segundo a entidade, existem processos judiciais em diferentes estados nos quais pacientes obtiveram liminares favoráveis, mas continuaram aguardando a entrega dos medicamentos.

Há relatos de compras condicionadas a processos licitatórios incompatíveis com a urgência clínica exigida pelos tratamentos oncológicos. Em alguns casos, os pacientes permanecem aguardando mesmo após decisões judiciais definitivas.

O que diz o Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde afirma que está ampliando a oferta de medicamentos oncológicos de alto custo na rede pública. Segundo a pasta, outros 23 medicamentos serão disponibilizados gradualmente a partir de outubro.

O investimento anunciado é de R$ 2,2 bilhões. De acordo com o governo federal, a iniciativa representa um aumento de 35% na oferta desses tratamentos e deverá beneficiar mais de 112 mil pacientes.

Entre os medicamentos citados estão lenalidomida, asciminibe e ponatinibe.

Sobre o blinatumomabe, medicamento aguardado por Larissa, o ministério informou que a terapia já integra a rede pública por meio das Unidades de Alta Complexidade em Oncologia e dos Centros de Alta Complexidade em Oncologia, responsáveis pelas aquisições. A pasta não esclareceu, porém, por que o remédio não chegou à paciente mesmo após a determinação judicial.

Segundo o G1, enquanto isso, o Tribunal de Contas da União realiza auditoria para verificar se terapias incorporadas ao SUS estão efetivamente chegando à população dentro dos prazos previstos pela legislação, investigação que ocorre paralelamente às denúncias apresentadas à Procuradoria-Geral da República.

Alan Correa
Alan Correa
Jornalista multimídia e analista de tendências (MTB: 0075964/SP). Com olhar versátil que transita entre o setor automotivo, economia e cultura pop, é especialista em traduzir dinâmicas complexas do mercado e do comportamento do consumidor. No Carro Das Notícias e portais parceiros, assina de testes técnicos e guias de compra a análises de engajamento e entretenimento, sempre com foco em dados e interesse do público.

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