Dia Internacional das Meninas 2026: Brasil celebra pela primeira vez data criada por lei enquanto milhões de meninas ainda enfrentam violência e casamento infantil
Dia Internacional das Meninas, celebrado em 11 de outubro, destaca direitos à educação, proteção contra violência, combate ao casamento infantil e igualdade de oportunidades no Brasil e no mundo.
Uma menina deveria ter como maior preocupação escolher uma brincadeira, aprender a ler, fazer amigos e imaginar o que deseja ser quando crescer, mas milhões de crianças passam a infância enfrentando violência, abandono, casamentos precoces e dificuldades para continuar estudando, uma realidade que o Dia Internacional das Meninas, celebrado neste domingo, 11 de outubro de 2026, procura mudar.
A data nasceu de uma preocupação que atravessa países ricos e pobres, porque nascer menina ainda pode significar enfrentar obstáculos que começam dentro de casa, continuam na escola e podem acompanhar uma criança até a vida adulta, tirando dela a chance de estudar, trabalhar, viver em segurança e tomar suas próprias decisões.
O Dia Internacional das Meninas foi criado pela Organização das Nações Unidas em 19 de dezembro de 2011, quando a Assembleia Geral aprovou a Resolução 66/170, e passou a ser celebrado em 11 de outubro de 2012, com a missão de colocar os direitos das meninas entre as preocupações dos governos e da sociedade.
Em 2026, a comemoração ganha um significado especial no Brasil, porque este é o primeiro 11 de outubro após a criação do Dia Nacional das Meninas pela Lei nº 15.261, de 13 de novembro de 2025, que colocou a data no calendário brasileiro e abriu espaço para ações de defesa dos direitos das crianças.
O tema internacional escolhido pelo UNICEF para 2026 é o combate ao casamento infantil e a defesa dos direitos das meninas, um problema que muitas vezes passa despercebido por quem acredita que uma união antes dos 18 anos representa apenas uma escolha da família, quando pode interromper os estudos, aumentar a dependência de outras pessoas e tirar oportunidades de uma criança.
Todos os anos, cerca de 12 milhões de meninas se casam antes de completar 18 anos no mundo, o equivalente a milhões de infâncias interrompidas por responsabilidades que deveriam chegar apenas na vida adulta, enquanto famílias, organizações e governos tentam impedir que essas crianças deixem a escola para assumir uma vida de casamento.
A educação é outra preocupação, porque uma menina que deixa de frequentar a escola perde muito mais do que aulas de português e matemática, perde também o convívio com outras crianças, a chance de descobrir suas habilidades e uma parte importante do caminho para conseguir independência quando crescer.
Dados internacionais divulgados em 2025 apontavam aproximadamente 122 milhões de meninas fora da escola em diferentes países, um número que mostra como a falta de acesso à educação ainda atinge crianças que poderiam estar aprendendo, brincando e planejando o futuro em vez de enfrentar dificuldades que não deveriam fazer parte da infância.
No Brasil, a violência sexual aparece entre os problemas mais graves, com aproximadamente 165 mil crianças e adolescentes de até 19 anos registrados como vítimas entre 2021 e 2023, sendo 87,3% do sexo feminino, um retrato que mostra como meninas são especialmente atingidas por esse tipo de crime.
O perigo nem sempre está longe de casa ou nas ruas de uma cidade desconhecida, porque a violência também pode acontecer dentro da própria família, em locais frequentados pelas crianças e em ambientes nos quais deveriam receber cuidado, proteção e respeito.
A internet trouxe mais um motivo de preocupação, com redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos que permitem conversar com desconhecidos, enquanto crianças e adolescentes podem ser vítimas de ameaças, chantagens, exposição de imagens íntimas e outras formas de abuso praticadas por meio da tecnologia.
Um estudo divulgado em 2026 apontou que 19% das crianças e adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos sofreram alguma forma de abuso ou exploração sexual facilitada pela tecnologia durante um período de um ano, mostrando que a proteção das meninas também precisa acompanhar o que acontece nas telas dos celulares.
O direito à saúde também faz parte dessa discussão, principalmente quando meninas chegam à adolescência sem acesso a informações sobre o próprio corpo, atendimento médico ou produtos básicos de higiene menstrual, situações que podem trazer vergonha, dificuldades na escola e problemas que poderiam ser evitados com orientação e cuidado.
Entre as ações realizadas no Brasil, o UNICEF registrou em 2025 a participação de mais de 10 mil meninas em atividades sobre direitos, saúde menstrual e prevenção da violência em oito cidades, enquanto outras iniciativas levaram produtos de higiene e apoio a mais de 4 mil meninas e adolescentes indígenas e migrantes.
Proteger uma menina também significa permitir que sua opinião seja ouvida, que ela participe das atividades escolares, pratique esportes, conheça profissões e tenha liberdade para imaginar uma vida diferente daquela que outras pessoas escolheriam por ela.
Essa proteção não depende apenas de leis ou campanhas realizadas uma vez por ano, porque professores, familiares, vizinhos e profissionais de saúde também podem perceber sinais de sofrimento, ouvir uma criança que pede ajuda e comunicar suspeitas de violência antes que a situação se agrave.
No Brasil, denúncias de violações dos direitos de crianças e adolescentes podem ser feitas pelo Disque 100, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, inclusive aos domingos e feriados, ou encaminhadas ao Conselho Tutelar, responsável por atuar na proteção de crianças e adolescentes em situações de risco.
O Dia Internacional das Meninas não pede presentes nem homenagens especiais, mas chama a atenção para algo que deveria ser simples em qualquer lugar do mundo, o direito de uma criança permanecer na escola, brincar sem medo, crescer protegida e chegar à vida adulta com a possibilidade de escolher o próprio caminho.
Enquanto milhões de meninas ainda precisam lutar por direitos que deveriam estar garantidos desde o nascimento, o 11 de outubro deixa uma pergunta que não pode ficar restrita às campanhas desta data, que futuro uma sociedade está construindo quando tantas crianças ainda precisam de proteção para simplesmente viver a própria infância?













