Viagem Astral: Brasileiros estão relatando algo assustador durante o sono, e a ciência decidiu investigar o que ninguém queria explicar
Pesquisa publicada na Nature Communications Psychology aponta que até 20% dos brasileiros relatam experiências fora do corpo ao longo da vida.
A sensação de estar consciente fora do próprio corpo, observar o ambiente de maneira incomum ou perceber a própria presença deslocada da realidade cotidiana deixou de ocupar apenas espaços ligados à espiritualidade, relatos religiosos ou programas de televisão sobre paranormalidade. Um estudo publicado na revista científica Nature Communications Psychology colocou esse tipo de experiência sob análise estatística ampla e encontrou números que chamaram atenção até entre os próprios pesquisadores.
A pesquisa reuniu respostas de mais de 11 mil participantes em seis estudos diferentes e concluiu que experiências subjetivas consideradas incomuns aparecem em praticamente toda a população. Dependendo da metodologia usada, entre 97,57% e 99,5% dos entrevistados afirmaram já ter vivido ao menos uma experiência não ordinária ao longo da vida.
O trabalho foi conduzido por cientistas ligados ao Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e à iniciativa IDOR Ciência Pioneira. Em vez de tratar automaticamente os relatos como sintomas psiquiátricos, manifestações espirituais ou eventos sobrenaturais, os pesquisadores decidiram observar primeiro como essas experiências são percebidas e descritas pelas pessoas.
O que os cientistas classificaram como experiência fora do corpo
No estudo, a chamada viagem astral aparece descrita como uma experiência subjetiva de separação entre consciência e corpo físico. Algumas pessoas afirmam sentir que observam o ambiente externamente. Outras descrevem alterações intensas de percepção, deslocamento espacial e sensação de presença.
Os pesquisadores evitaram enquadrar o fenômeno como comprovação espiritual ou paranormal. A proposta foi analisar como estados de consciência incomuns aparecem dentro da população geral sem assumir interpretações prévias.
Segundo os dados coletados, experiências desse tipo tiveram prevalência entre 13% e 20% dos participantes. O índice colocou a experiência fora do corpo entre os fenômenos menos frequentes do levantamento, embora ainda apareça em uma parcela expressiva da amostra.
“Muitas pessoas passam por esse tipo de experiência e não sabem como interpretar”, afirmou Ronald Fischer, principal autor do estudo.
O pesquisador também afirmou que o medo de julgamento ainda faz muitas pessoas esconderem esses relatos, principalmente quando associam o tema a possíveis interpretações clínicas ou sociais negativas.
Déjà vu, sonhos lúidos e sensação de presença aparecem em larga escala

As experiências mais comuns identificadas na pesquisa envolveram alterações cognitivas, emocionais e perceptivas. O déjà vu liderou os relatos entre os participantes, seguido por sonhos lúidos, absorção cognitiva e emoções intensas de alegria, amor e compaixão.
Outros fenômenos apareceram com frequência elevada:
- sensação de presença invisível, entre 30% e 57%;
- sensação de ser tocado sem causa física aparente, entre 30% e 48%;
- sensação de ser guiado por uma força, entre 27% e 55%;
- percepções consideradas extrassensoriais, entre 41% e 55%.
Até experiências consideradas raras, como perceber objetos aparentemente animados, apareceram em aproximadamente 18% das respostas.
Forma da pergunta alterou drasticamente os resultados
Uma das conclusões centrais do estudo envolve aquilo que os autores chamaram de paradoxo da prevalência. Segundo os pesquisadores, a forma como as perguntas são feitas altera significativamente a quantidade de relatos.
Os cientistas dividiram os participantes em grupos diferentes. Parte deles respondeu inicialmente perguntas ligadas à saúde mental, ansiedade e depressão antes de falar sobre experiências subjetivas. Outro grupo respondeu diretamente sobre as vivências incomuns.
O resultado mostrou redução relevante nos relatos quando o tema aparecia associado ao contexto clínico.
Além disso, questionários binários de sim ou não produziram números muito menores do que formulários com escalas graduais de frequência. Quando os participantes podiam responder uma vez, algumas vezes ou mais de dez vezes, a incidência de respostas afirmativas aumentava em mais de quatro vezes.
Segundo os autores, isso acontece porque perguntas graduais transmitem implicitamente a ideia de que a experiência pode ser relativamente comum, reduzindo hesitação e medo de julgamento.
Professora relata experiências recorrentes desde a infância
A professora convidada da pós-graduação em Neurociências Aplicadas da UFRJ, Bárbara Pires, afirmou ao g1 que vive experiências fora do corpo desde a infância. Segundo ela, algumas situações aparecem associadas ao sono e aos sonhos lúidos, enquanto outras ocorrem em diferentes estados de consciência.
Ela relata sensação de deslocamento da consciência em relação ao corpo físico, alterações na percepção espacial e consciência lúida do ambiente ao redor. As experiências, segundo a professora, não acontecem diariamente, mas aparecem ao menos uma vez por semana.
Pires afirmou que considera legítima a investigação espiritual do fenômeno, mas defende que as experiências não sejam reduzidas exclusivamente a interpretações religiosas, psicológicas ou neurobiológicas.
Os autores do estudo afirmam que experiências subjetivas só podem receber interpretação clínica quando aparecem acompanhadas de sofrimento psicológico, prejuízo funcional ou comprometimento do bem-estar. A pesquisa defende que compreender esses relatos pode ajudar a ciência a investigar processos ligados à memória, percepção, emoção, consciência e construção de significado, tema que segue em expansão dentro da neurociência e da psicologia contemporânea.
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