Você não imagina o que foi encontrado sob uma senzala, e os objetos revelam uma história que tentaram apagar em São Paulo

Escavações realizadas em uma antiga senzala no interior de São Paulo trouxeram à tona vestígios que ajudam a reconstruir aspectos pouco documentados da vida de pessoas escravizadas no século 19. Os achados, encontrados na Fazenda do Pinhal, em São Carlos, indicam tanto formas de ocupação do espaço quanto tentativas posteriores de apagamento dessa memória.

Cidades
Publicado por em 4/05/2026
Você não imagina o que foi encontrado sob uma senzala, e os objetos revelam uma história que tentaram apagar em São Paulo

A Fazenda do Pinhal, construída ao longo da primeira metade do século 19, foi uma importante unidade cafeeira no interior paulista. Tombada em 1981 em nível estadual e reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1987, a propriedade remonta ao período de expansão do café e da escravidão.

Sob administração de Antônio Carlos de Arruda Botelho, que se tornaria conde do Pinhal, e de sua esposa Ana Carolina, a fazenda consolidou-se como um dos centros produtivos da época. A narrativa histórica, no entanto, sempre destacou os proprietários, deixando em segundo plano a presença das famílias negras que viveram e trabalharam no local.

Escavações revelam camadas de ocupação

As intervenções arqueológicas identificaram diferentes níveis de uso da senzala ao longo do tempo. O piso original de terra batida foi preservado sob camadas mais recentes de cimento e lajota, associadas a ocupações posteriores por imigrantes europeus e descendentes de trabalhadores.

  • Piso original preservado a cerca de 50 centímetros de profundidade
  • Camadas superiores com materiais do século 20
  • Vestígios de uso contínuo do espaço após a abolição

Nos níveis mais recentes, foram encontrados objetos como uma moeda de 400 réis datada de 1926, bicos de pena, ampolas de vidro e fragmentos de louça. Já no nível mais antigo, surgiram moedas de 1827 e estruturas de combustão associadas a carvão, cinzas e restos orgânicos.

Fogueiras como centro de sociabilidade

As cerca de nove estruturas de combustão identificadas indicam a presença de fogueiras dentro da senzala. Mais do que atividades domésticas, esses espaços funcionavam como pontos de convivência.

As fogueiras eram usadas para preparo de alimentos, aquecimento e também para encontros, narrativas e práticas culturais

Relatos de moradores posteriores reforçam essa continuidade. Há registros de famílias que ainda utilizavam fogueiras para aquecer ambientes, mantendo práticas que atravessaram gerações.

Vestígios religiosos e culturais

Entre os objetos encontrados, destacam-se dois cachimbos e contas de colar, elementos associados a práticas religiosas de origem africana. Esses itens indicam a manutenção de tradições culturais mesmo em contextos de repressão.

O uso do cachimbo, embora comum, era frequentemente reprimido no período escravocrata. Já as contas de colar são associadas a rituais e à conexão com ancestralidade, sendo interpretadas como sinais de culto a entidades religiosas.

Objeto Período Indicação
Moedas de 1827 Século 19 Ocupação original
Moeda de 1926 Século 20 Uso posterior do espaço
Contas de colar Indeterminado Práticas religiosas

A presença desses itens reforça a interpretação de que o espaço não era apenas um local de controle, mas também de construção de vínculos sociais e culturais.

Apagamento histórico e reconstrução da memória

A antiga senzala passou por reformas ao longo do tempo que alteraram sua estrutura e função, contribuindo para o apagamento físico e simbólico de sua história. Muitas dessas edificações foram destruídas ou descaracterizadas sob o argumento de eliminar vestígios de violência.

Pesquisadores envolvidos no projeto destacam que a arqueologia permite recuperar essas narrativas, reinscrevendo o papel das populações negras na formação da região. O trabalho também revelou que moradores recentes da propriedade desconheciam a origem do edifício.

Segundo o Jornal da USP, a pesquisa inclui ainda a participação de representantes de comunidades religiosas e ex-moradores, ampliando as interpretações sobre os achados. Parte do material será analisada em diálogo com casas de Candomblé e Umbanda da região.

Com a conclusão das escavações, o acervo será catalogado e integrado a estudos futuros. A Fazenda do Pinhal, que hoje abriga um centro de pesquisa e recebe visitantes mediante agendamento, deve incorporar os resultados às atividades educativas e a produções audiovisuais em andamento, incluindo um documentário sobre as descobertas.

Bianca Ludymila Peres Corrêa
Bianca Ludymila Peres Corrêa
Jornalista (MTB 0081969/SP) dedicada à cobertura de temas regionais e nacionais, atua com olhar atento ao cotidiano, política e sociedade. Produz conteúdo claro, informativo e relevante para diferentes públicos.

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