Por que equipes usam lonas de quatro cores ao redor de acidentes? Resgate em massa exige precisão, método e leitura do cenário

Acidentes com muitos veículos raramente produzem uma cena silenciosa. Carros retorcidos, ônibus parados em ângulos improváveis e motocicletas espalhadas no asfalto compõem um cenário que exige velocidade, mas também método. Quando o número de vítimas supera o de socorristas, cada minuto passa a ter peso desproporcional, e é nesse contexto que as lonas verde, amarela, vermelha e preta começam a aparecer. Elas não são acessórios, mas parte de uma lógica operacional desenvolvida para que o caos não impeça o que realmente importa, o atendimento certo no tempo necessário.

São Paulo
Publicado por Bianca Ludymila em 17/11/2025

Acidente com ônibus perto da Rodovia Raposo Tavares — Foto: Reprodução/TV Globo
Acidente com ônibus perto da Rodovia Raposo Tavares — Foto: Reprodução/TV Globo

As equipes de resgate atuam aplicando o método START, um sistema criado para fazer triagens rápidas quando o volume de pacientes é grande demais para o número de profissionais disponíveis. Embora o trânsito urbano e rodoviário varie em complexidade, o princípio é sempre o mesmo, avaliar respiração, perfusão, consciência e mobilidade em poucos segundos. A prioridade recai sobre quem tem maior chance de sobreviver com os recursos presentes, uma decisão que precisa ser ágil e, ao mesmo tempo, ancorada em critérios técnicos.

A cena de um acidente com diversos carros revela elementos que ajudam a entender o método. Enquanto bombeiros e emergencistas se dividem entre vítimas presas em ferragens, passageiros atordoados e motoristas que conseguem caminhar, as lonas já estão estendidas para delimitar áreas e orientar o fluxo das equipes. Verde representa os ferimentos leves, amarelo marca quem pode aguardar, vermelho identifica quem precisa de atendimento imediato e preto sinaliza ausência de respiração mesmo após a abertura das vias aéreas. Essa paleta funciona como um mapa para que os socorristas distribuam esforços, evitem congestionamento de macas e mantenham o combate ao risco de morte dentro de parâmetros controláveis.

O trabalho no asfalto exige leitura do ambiente, porque nem toda vítima presa em um veículo está em pior condição e nem todo passageiro capaz de andar está completamente fora de perigo. A avaliação respiratória vem primeiro. Se a vítima não respira, abre se a via aérea, e, caso volte a respirar, recebe classificação vermelha. Depois, avalia se a perfusão, observando se o sangue chega corretamente às extremidades. Em seguida, verifica se a pessoa é capaz de compreender ordens simples. Esse processo, apesar de sucinto, substitui decisões baseadas em impressão ou ansiedade.

Para quem observa de fora, as lonas protegem a privacidade e evitam exposição de imagens sensíveis, mas para as equipes elas funcionam como áreas de concentração. A organização espacial reduz deslocamentos desnecessários, ajuda na comunicação entre bombeiros, Samu e equipes das concessionárias e cria um trajeto seguro para quem entra e sai com macas, equipamentos e instrumentos de imobilização. Em acidentes que envolvem ônibus ou veículos de grande porte, essa separação se torna vital, porque o fluxo de vítimas tende a crescer de forma abrupta.

A aplicação do método se diferencia do protocolo de Manchester, que é usado em ambiente hospitalar. No chão do asfalto, o tempo responde a outra lógica, pressionando o socorrista a decisões imediatas. Enquanto Manchester considera uma série mais ampla de informações clínicas, START reduz tudo ao essencial, justamente para adaptar se à imprevisibilidade de rodovias e vias urbanas. Por isso, profissionais de concessionárias, bombeiros e equipes de APH recebem treinamento específico para garantir que o processo seja uniforme, mesmo em cenários distintos.

A reavaliação constante integra o procedimento porque o estado de uma vítima pode mudar de um minuto para o outro. Uma pessoa classificada como amarela pode evoluir para vermelha e requerer prioridade. Essa dinâmica reforça por que as equipes nunca deixam de circular entre as áreas criadas pelas lonas. A lógica de triagem não é fixa, mas um fluxo contínuo que considera o impacto do acidente, o comportamento mecânico dos veículos envolvidos, o deslocamento das equipes e o comportamento clínico de cada vítima. Assim, o que parece simples, na verdade exige coordenação, leitura técnica e sensibilidade para lidar com vidas que dependem da precisão de cada escolha.

Fonte: G1.

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