Polícia Civil afirma que PMs seguiram protocolo ao entrar armados em escola após denúncia sobre desenho de orixá
A Polícia Civil concluiu que policiais militares seguiram os protocolos ao entrar armados em uma escola infantil após uma denúncia ligada a um desenho de Iansã. O inquérito, porém, terminou antes da análise integral das câmeras corporais.
A entrada de 12 policiais armados na EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, começou com uma reclamação sobre um desenho infantil e terminou em um debate sobre protocolo, transparência e limites da atuação estatal.
Em novembro de 2025, o pai de uma aluna de 4 anos, que também é soldado da Polícia Militar, acionou a corporação após a filha participar de uma atividade sobre Iansã. Ele sustentava que a escola estaria promovendo ensino religioso africano. A unidade afirmava que o trabalho abordava cultura afro-brasileira, conforme as leis federais 10.639 e 11.645.
A ocorrência mobilizou 12 policiais. Um deles portava um fuzil preso à bandoleira. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, o armamento permaneceu em posição segura e não poderia ser deixado na viatura, tanto por obrigação funcional quanto pelo risco de extravio.
O que apareceu depois do encerramento do inquérito
A Polícia Civil encerrou a investigação em fevereiro de 2026 e concluiu que os agentes haviam seguido o procedimento padrão. Naquele momento, o delegado Saulos Ramos Furquim tinha recebido da PM apenas um relatório com imagens isoladas das câmeras corporais.
As gravações integrais, com 3 horas e 37 minutos, foram anexadas aos autos somente em junho. Elas mostram uma discussão que não constava do documento inicial. Durante o diálogo, o tenente Ronald Camacho acusou a então diretora de impor regras, pensamentos e ideologia, além de mencionar a possibilidade de retornar à escola com uma medida administrativa.
Em depoimento, o oficial declarou que a ocorrência transcorreu sem agressividade e que apenas sugeriu a escuta das partes e eventual encaminhamento ao distrito policial. O relatório da PM afirmou ainda que os agentes deixaram o local em interação fraternal com as pessoas presentes.
A disputa sobre o conteúdo pedagógico
A diretora explicou que a atividade usava o livro infantil Ciranda de Aruanda, distribuído à rede municipal, e tratava a mitologia dos orixás sob perspectiva cultural e literária. Ela também relatou que o pai havia entrado na escola no dia anterior, discutido com uma professora e retirado o desenho da criança.
O tenente interpretou a presença do nome Iansã como elemento religioso. Em ligação colocada no viva-voz, uma supervisora da Diretoria Regional de Educação do Butantã afirmou que o episódio deveria ser tratado como questão pedagógica, não como intolerância religiosa.
Questionamentos sobre a atuação policial
Segundo o G1, Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ex-policial federal, classificou a mobilização como desproporcional e apontou possível abuso de poder. Ele questionou se o mesmo efetivo teria sido enviado caso o denunciante não integrasse a corporação.
A SSP informou que a PM possui diretrizes próprias para atuação em escolas e treinamento para ocorrências envolvendo intolerância religiosa. Segundo a pasta, a orientação é buscar solução consensual, orientar os envolvidos e adotar medidas legais quando houver indícios de crime.
O inquérito permanece encerrado, enquanto as imagens completas agora disponíveis acrescentam fatos que não integraram a análise usada para concluir que a operação seguiu o protocolo.












