O que é a terapia CAR-T Cell e por que ela pode mudar o tratamento do câncer no SUS

Estudo conduzido pela USP apontou resposta de 87,5% em pacientes com linfoma não Hodgkin tratados com a versão brasileira da terapia CAR-T Cell, atualmente em avaliação clínica.

Saúde e Bem-Estar
Publicado por em 10/06/2026
O que é a terapia CAR-T Cell e por que ela pode mudar o tratamento do câncer no SUS

A versão brasileira da terapia CAR-T Cell desenvolvida pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo, em parceria com o Instituto Butantan, apresentou resultados considerados promissores em pacientes com linfoma não Hodgkin. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostram uma taxa de resposta de 87,5% entre os pacientes tratados até o momento, indicando redução significativa ou desaparecimento dos tumores após a terapia.

O tratamento utiliza células de defesa do próprio paciente. Essas células são retiradas do organismo, modificadas geneticamente em laboratório e posteriormente reinfundidas para reconhecer e combater as células cancerígenas. A tecnologia é considerada uma das abordagens mais avançadas atualmente disponíveis para determinados tipos de câncer hematológico.

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, os resultados observados até agora reforçam o potencial da terapia desenvolvida no Brasil. O objetivo principal da pesquisa é avaliar a segurança do tratamento, monitorar possíveis eventos adversos e medir sua eficácia em pacientes que, em muitos casos, já haviam esgotado alternativas terapêuticas convencionais.

Pesquisa segue em fase clínica e amplia número de participantes

O estudo prevê o recrutamento de pelo menos 100 pacientes. Até agora, 75 participantes já foram incluídos na pesquisa clínica. Desse grupo, 25 receberam a infusão das células CAR-T e estão sendo acompanhados pelas equipes médicas.

De acordo com o professor titular de Hematologia da USP Rodrigo Calado, os resultados obtidos com pacientes diagnosticados com linfoma não Hodgkin superaram as expectativas iniciais da equipe responsável pela pesquisa.

A terapia foi desenvolvida nos laboratórios da USP com o objetivo de ampliar o acesso dos pacientes brasileiros a uma tecnologia que hoje está entre as mais avançadas no tratamento de leucemias e linfomas.

Os pesquisadores também trabalham para expandir a utilização da tecnologia para outras doenças. Estudos clínicos envolvendo pacientes com lúpus e miastenia gravis devem começar em breve, ampliando o alcance potencial da plataforma desenvolvida no país.

Tratamento pode abrir caminho para incorporação ao SUS

Uma das principais expectativas em torno do projeto está relacionada à possibilidade de futura incorporação da terapia ao Sistema Único de Saúde. Atualmente, tratamentos semelhantes disponíveis em outros países podem alcançar valores próximos de 500 mil dólares por paciente.

O Ministério da Saúde acompanha os avanços da pesquisa e vê a tecnologia como estratégica para ampliar o acesso a terapias de alta complexidade dentro da rede pública. Paralelamente, pesquisadores mantêm diálogo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária para avançar nas etapas regulatórias necessárias para o registro do produto.

A Anvisa incluiu o estudo no Comitê de Acompanhamento Regulatório da Inovação em Saúde, iniciativa voltada ao monitoramento de tecnologias consideradas relevantes para a saúde pública brasileira. O acompanhamento permite que a agência avalie resultados clínicos à medida que são produzidos, reduzindo etapas futuras do processo regulatório.

Pacientes relatam remissão após esgotarem outras alternativas

Entre os casos acompanhados pela pesquisa está o do publicitário Paulo Peregrino, que recebeu a terapia em 2023 após passar por diversos tratamentos contra um linfoma. Antes da inclusão no protocolo experimental, ele havia realizado cirurgias, exames e sessões de quimioterapia.

Após o tratamento, Paulo apresentou remissão completa da doença, condição que permanece sem detecção do câncer nos exames realizados desde então. O paciente retomou atividades do cotidiano, voltou a praticar exercícios físicos e retomou a convivência social interrompida durante o tratamento, revelou o G1.

O estudo conta com a participação do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP em São Paulo, Unicamp, Beneficência Portuguesa e Hospital Sírio-Libanês. Paralelamente à continuidade da pesquisa, a USP prevê a criação de uma rede de hospitais do SUS capacitada para aplicar a terapia em diferentes regiões do país, iniciativa que deverá envolver instituições localizadas em pelo menos sete capitais brasileiras.

Bianca Ludymila Peres Corrêa
Bianca Ludymila Peres Corrêa
Jornalista (MTB 0081969/SP) dedicada à cobertura de temas regionais e nacionais, atua com olhar atento ao cotidiano, política e sociedade. Produz conteúdo claro, informativo e relevante para diferentes públicos.

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