Empresas estão trocando gente por IA, mas ignoram um detalhe que pode explodir a economia: quem vai comprar os produtos?

O avanço acelerado da inteligência artificial começou a levantar uma preocupação que vai além da tecnologia e chegou ao centro do debate econômico global: o que acontece com o consumo quando empresas substituem trabalhadores humanos por sistemas automatizados em larga escala.

Negócios
Publicado por em 9/05/2026
Empresas estão trocando gente por IA, mas ignoram um detalhe que pode explodir a economia: quem vai comprar os produtos?

O crescimento da inteligência artificial dentro das empresas abriu uma nova disputa silenciosa no mercado global. De um lado, companhias aceleram investimentos em automação para aumentar produtividade e reduzir despesas. Do outro, cresce o temor de que a substituição em massa de trabalhadores comprometa a própria demanda dos consumidores no futuro.

O debate foi impulsionado por um artigo publicado pelos pesquisadores Brett Falk, da University of Pennsylvania, e Gerry Tsoukalas, da Boston University. Segundo os autores, as empresas vivem atualmente uma espécie de “corrida armamentista da automação”, pressionadas pela necessidade de não ficar atrás dos concorrentes na adoção de inteligência artificial.

Economistas alertam para risco de colapso do consumo com avanço da IA

Ao reduzir empregos para cortar custos, empresas também diminuem a renda de milhões de consumidores responsáveis por sustentar a economia e comprar produtos e serviços.
Ao reduzir empregos para cortar custos, empresas também diminuem a renda de milhões de consumidores responsáveis por sustentar a economia e comprar produtos e serviços.

Na análise dos pesquisadores, existe um paradoxo no atual modelo de automação. Embora a substituição de funcionários por sistemas de inteligência artificial possa aumentar lucros no curto prazo, a consequência coletiva pode atingir diretamente o consumo e enfraquecer toda a economia.

“Os trabalhadores demitidos também são consumidores e, quando a renda perdida não é compensada, cada rodada de demissões corrói o poder de compra do qual todas as empresas dependem”, afirmam Brett Falk e Gerry Tsoukalas.

Os autores classificam esse cenário como “AI layoff trap”, expressão que pode ser traduzida como armadilha das demissões por inteligência artificial.

Segundo o estudo, nenhuma empresa consegue simplesmente abandonar a corrida tecnológica porque o risco de perder competitividade para rivais se tornou alto demais. O resultado seria uma automatização crescente mesmo diante dos impactos negativos sobre emprego e consumo.

Teoria dos jogos ajuda a explicar corrida pela automação

Os pesquisadores utilizam conceitos da teoria dos jogos para explicar por que as empresas continuam avançando na automação mesmo reconhecendo os riscos econômicos de longo prazo.

Na prática, cada companhia busca maximizar seus próprios ganhos individuais reduzindo custos operacionais. Porém, coletivamente, esse comportamento pode levar a um desequilíbrio econômico mais amplo, prejudicando inclusive os próprios lucros futuros das empresas.

Os autores comparam a situação a uma externalidade negativa semelhante à poluição ambiental. Segundo eles, quando uma companhia substitui trabalhadores por inteligência artificial para cortar despesas, ela transfere parte do impacto econômico para toda a sociedade ao reduzir renda e capacidade de consumo.

Imposto sobre inteligência artificial entra no debate

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a criação de um imposto específico para empresas que substituem trabalhadores humanos por sistemas automatizados.

A proposta segue o conceito do chamado imposto pigouviano, criado pelo economista Arthur Pigou para compensar externalidades negativas geradas por determinadas atividades econômicas.

Em um exemplo hipotético citado no debate, se uma hora de trabalho de um robô custasse US$ 10 e a de um trabalhador humano US$ 20, um imposto adicional sobre a automação poderia elevar artificialmente o custo da máquina para reduzir o incentivo econômico da substituição.

Andrew Yang apoia tributação sobre empresas que substituem empregos

O tema também ganhou apoio de figuras conhecidas do debate econômico nos Estados Unidos. Um dos defensores da renda básica universal, o empresário Andrew Yang afirmou recentemente à CNBC que tributar empresas altamente automatizadas pode se tornar inevitável.

Segundo Yang, o incentivo atual favorece excessivamente a substituição de trabalhadores humanos, especialmente em funções administrativas e corporativas.

Ele citou declarações do CEO da Anthropic, Dario Amodei, que estimou o desaparecimento de até 50% dos chamados “white-collar jobs”, cargos administrativos e de escritório tradicionalmente ocupados por profissionais qualificados.

  • Empresas aceleram adoção de inteligência artificial
  • Pesquisadores alertam para risco de queda no consumo
  • Debate sobre imposto da automação ganha força
  • Economistas divergem sobre impacto da IA no emprego
  • Mercado teme avanço do desemprego entre recém-formados

Mercado segue dividido sobre impacto da inteligência artificial

Apesar dos alertas, parte do setor de tecnologia considera exageradas as previsões mais pessimistas sobre desemprego em massa provocado pela inteligência artificial.

O investidor David George, sócio da Andreessen Horowitz, afirma que o mercado historicamente sempre absorveu mudanças tecnológicas profundas criando novas atividades econômicas ao longo do tempo.

Segundo ele, previsões de colapso permanente do emprego ignoram a capacidade de adaptação da economia e das necessidades humanas.

George relembra que transformações anteriores, como a mecanização da agricultura e o avanço da automação industrial, também geraram temores semelhantes antes de criarem novos setores e profissões.

Enquanto isso, empresas de tecnologia continuam ampliando investimentos em sistemas automatizados, agentes de inteligência artificial e plataformas capazes de executar tarefas que até poucos anos atrás dependiam exclusivamente de trabalhadores humanos.

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