Exercício de manhã ou à noite? Pesquisa explica por que o relógio biológico muda os resultados do treino
A relação entre horário do treino e saúde cardiovascular ganhou novos contornos após um estudo clínico identificar que exercícios realizados em sintonia com o ritmo biológico do corpo podem ampliar efeitos sobre pressão arterial, sono, metabolismo e desempenho cardiorrespiratório. A pesquisa acompanhou adultos sedentários durante 12 semanas e encontrou diferenças importantes entre quem treinava em horários compatíveis com o próprio cronotipo e aqueles que praticavam atividade física em períodos opostos ao funcionamento natural do organismo.
A recomendação médica para prática regular de atividade física é consenso há décadas na prevenção de doenças cardiovasculares. Um estudo publicado na revista científica Open Heart, porém, acrescenta um novo elemento à discussão: o horário do treino pode alterar diretamente os resultados obtidos pelo organismo.
A pesquisa avaliou 150 adultos sedentários entre 40 e 60 anos em um ensaio clínico randomizado. Os participantes foram divididos em dois grupos distintos. Um deles realizava exercícios em horários compatíveis com o próprio cronotipo, enquanto o outro treinava no período oposto ao seu ritmo biológico natural.
Após 12 semanas de acompanhamento, os pesquisadores identificaram diferenças relevantes entre os grupos, principalmente em indicadores cardiovasculares e metabólicos.
Queda da pressão foi maior entre participantes alinhados ao cronotipo
Entre os principais resultados observados no grupo que treinou em horários compatíveis com o relógio biológico estão:
- maior redução da pressão arterial
- melhora da variabilidade da frequência cardíaca
- aumento da capacidade cardiorrespiratória
- redução do colesterol LDL
- queda da glicose em jejum
- melhora significativa da qualidade do sono
Os dados relacionados à pressão arterial chamaram atenção dos pesquisadores. Em média, os participantes do grupo alinhado ao cronotipo tiveram redução de 10,8 mmHg, enquanto o grupo desalinhado apresentou queda de 5,5 mmHg.
Entre pessoas diagnosticadas com hipertensão, os números foram ainda mais expressivos. A pressão caiu 13,6 mmHg no grupo compatível com o cronotipo e 7,1 mmHg entre aqueles que treinavam em horários considerados inadequados ao próprio organismo.
“Na prática, o exercício continua sendo a prioridade, mas os médicos agora podem dizer: ‘Se possível, exercite-se em um horário que corresponda ao seu ritmo energético natural’”, afirmou Arsalan Tariq, um dos autores do estudo.
Não existe horário universal para treinar
Os pesquisadores destacam que os resultados reforçam a inexistência de um horário ideal universal para atividade física. Segundo a análise, pessoas com perfil matutino responderam melhor aos exercícios feitos pela manhã, enquanto indivíduos com tendência noturna apresentaram mais benefícios ao treinar à noite.
O estudo relaciona essa resposta fisiológica ao funcionamento do cronotipo, mecanismo ligado ao ritmo circadiano responsável por regular diversas funções do organismo ao longo do dia.
Entre os fatores influenciados pelo cronotipo estão:
- liberação hormonal
- níveis de energia
- padrões de sono e vigília
- metabolismo da glicose
- pressão arterial
- frequência cardíaca
Segundo os pesquisadores, quando hábitos diários entram em conflito com esse relógio biológico interno, o organismo pode sofrer efeitos negativos semelhantes ao chamado “jet lag social”.
Como identificar o próprio cronotipo
De acordo com Arsalan Tariq, a percepção do cronotipo pode ser feita sem exames específicos. A orientação é observar os períodos do dia em que o corpo naturalmente apresenta mais disposição, concentração e energia.
Pessoas que acordam com facilidade, sentem maior produtividade pela manhã e costumam dormir cedo tendem ao perfil matutino. Já indivíduos que apresentam dificuldade para despertar cedo, mas ficam mais ativos no período noturno, costumam ter cronotipo vespertino.
Os pesquisadores sugerem observar o comportamento em dias livres, sem despertadores ou obrigações fixas. O horário espontâneo de sono e vigília funciona como um forte indicativo do funcionamento biológico individual.
Adesão ao exercício também foi maior
Outro dado identificado durante o estudo envolve a regularidade da prática física. Participantes que treinavam em horários compatíveis com o próprio ritmo biológico apresentaram maior adesão aos exercícios ao longo das 12 semanas.
Para os autores, isso pode ter impacto direto em estratégias de prevenção cardiovascular, já que manter constância na atividade física é um dos principais desafios enfrentados por profissionais de saúde.
Embora os pesquisadores reconheçam limitações, como o fato de os participantes serem provenientes de hospitais públicos de Lahore e a exclusão de pessoas com cronotipo intermediário, o estudo amplia evidências sobre a relação entre exercício físico e ritmo circadiano.
Segundo o G1, os autores afirmam que ainda são necessários testes em populações mais diversas, incluindo trabalhadores em turnos e grupos multiétnicos. Mesmo assim, defendem que a personalização do horário da atividade física pode se tornar uma ferramenta relevante em futuras recomendações clínicas voltadas à prevenção de doenças cardiovasculares.












