Na corrida presidencial, a tentativa de ampliar as respectivas bases tornou-se explícita na comunicação dos dois principais candidatos. Lula passou a dizer que o eleitor não precisa “fazer o L” ou vestir vermelho para apoiá-lo, enquanto Flávio Bolsonaro adotou mensagem segundo a qual o eleitor “não precisa gostar” dele para escolher sua candidatura. Apesar das diferenças entre os projetos políticos representados pelos dois candidatos, as mensagens cumprem função eleitoral semelhante: diminuir a exigência de identificação pessoal, partidária ou ideológica e abrir espaço para um voto baseado na comparação entre alternativas. A estratégia ganha importância porque pesquisas da Quaest vêm apontando bases fortemente consolidadas nos campos lulista e bolsonarista, ao mesmo tempo em que identificam dificuldade de ambos para avançar entre eleitores menos alinhados ideologicamente.
Esse quadro é descrito pela própria Quaest como uma eleição “calcificada”: as preferências continuam fortemente organizadas em torno dos dois polos que marcaram as últimas disputas presidenciais, ainda que ocorram oscilações dentro deles. Em levantamento divulgado em 7 de setembro, 96% dos eleitores identificados como lulistas declaravam voto em Lula em uma simulação de segundo turno, enquanto 98% dos bolsonaristas escolhiam Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de esquerda, Lula registrava 89%; entre os de direita, Flávio alcançava 86%. Já entre os independentes, nenhum dos dois havia construído vantagem decisiva naquele levantamento. A disputa pela expansão eleitoral, portanto, ocorre principalmente fora dos grupos já convencidos.
É justamente nesse ponto que a eleição paulista acrescenta uma dimensão importante à análise. Na pesquisa Quaest divulgada em 29 de setembro, Tarcísio aparece com 44% das intenções de voto para governador, enquanto Haddad registra 24%. Na rodada anterior, Tarcísio também marcava 44%, enquanto Haddad aparecia com 27%. Considerada a margem de erro do levantamento, oscilações entre rodadas precisam ser interpretadas com cautela, mas a fotografia mais recente mostra uma diferença nominal de 20 pontos entre os dois principais candidatos ao Palácio dos Bandeirantes. O resultado estadual chama atenção quando colocado ao lado da disputa presidencial em São Paulo, que levantamentos anteriores da Quaest apresentaram como consideravelmente mais equilibrada entre os dois principais campos nacionais.
A diferença entre os cenários não significa, contudo, que seja possível simplesmente subtrair os percentuais e concluir que determinado contingente de eleitores esteja migrando de um candidato presidencial para outro candidato ao governo. Para demonstrar isso seria necessário analisar cruzamentos específicos de intenção de voto — identificando, individualmente, em quem o mesmo entrevistado pretende votar para presidente e governador. O que os números permitem afirmar é algo diferente: as coalizões eleitorais formadas para cargos distintos não são necessariamente idênticas. Um eleitor pode escolher um candidato à Presidência e, simultaneamente, votar para governador em alguém associado a outro campo político, fenômeno conhecido na ciência política como voto cruzado.
Isso ajuda a compreender por que o desempenho de um candidato estadual não pode ser explicado exclusivamente pela força do candidato presidencial ao qual está politicamente associado. Tarcísio possui vínculos conhecidos com o campo político de Jair Bolsonaro, enquanto Haddad mantém relação histórica e partidária com Lula, mas os candidatos também carregam trajetórias, governos, avaliações, alianças regionais e imagens próprias perante o eleitorado paulista. Pesquisas estaduais realizadas ao longo de 2026 já mostravam São Paulo dividido na eleição presidencial e com inclinação maior à direita, ao mesmo tempo em que candidaturas locais produziam efeitos próprios sobre a disputa. A Quaest observa que essas variações estaduais coexistem com uma estrutura nacional de polarização relativamente estável.
A comparação também ajuda a explicar a importância crescente do eleitor independente. Ao longo de 2026, diferentes rodadas da Quaest registraram mudanças no comportamento desse segmento. Em março, por exemplo, Flávio Bolsonaro aparecia com 32% contra 27% de Lula entre independentes numa simulação de segundo turno, considerando margem de erro específica de três pontos para o grupo; pesquisas posteriores mostraram novas oscilações. Mais relevante que uma fotografia isolada é o fato de esse eleitorado não apresentar a mesma fidelidade encontrada entre lulistas e bolsonaristas. Trata-se, portanto, de um segmento em que avaliações sobre economia, segurança, gestão pública, propostas e características dos candidatos podem assumir peso maior do que a identidade partidária.
Na reta final, essa disputa também favorece discursos destinados a reduzir a resistência a determinado candidato. Ao dizer que o eleitor não precisa aderir aos símbolos de seu partido, Lula tenta separar a decisão eleitoral da identidade petista. Ao afirmar que o eleitor não precisa gostar dele, Flávio Bolsonaro procura construir uma justificativa de voto que não dependa de identificação pessoal. Em ambos os casos, a lógica é aproximar eleitores que podem rejeitar aspectos do candidato ou de seu grupo político, mas que ainda estejam dispostos a comparar propostas, governos e alternativas. Isso não elimina a polarização; ao contrário, demonstra que, quando os núcleos mais fiéis estão consolidados, a expansão passa a depender justamente de pessoas situadas nas fronteiras desses grupos.
São Paulo assume relevância especial nesse processo porque concentra o maior eleitorado do país e apresenta uma combinação particular entre política nacional e dinâmica estadual. A força eleitoral registrada por Tarcísio na pesquisa para governador não permite concluir que todos os seus eleitores apoiarão Flávio Bolsonaro para presidente, da mesma forma que a votação potencial de Lula no estado não pode ser automaticamente transferida para Haddad. Prefeitos, deputados, lideranças regionais e estruturas partidárias podem contribuir para mobilizar eleitores, mas a transferência de votos nunca deve ser tratada como automática. O próprio panorama estadual apresentado pela Quaest ao longo de 2026 mostrou que candidaturas locais são capazes de alterar a intensidade da disputa sem necessariamente romper a estrutura nacional da polarização.
A leitura conjunta das pesquisas e das estratégias de campanha revela, assim, uma eleição marcada por duas forças aparentemente contraditórias, mas simultâneas: de um lado, Lula e o campo político ligado à família Bolsonaro preservam bases altamente fiéis e continuam organizando grande parte da disputa nacional; de outro, candidatos precisam ultrapassar essas fronteiras para conquistar eleitores independentes, indecisos ou menos identificados ideologicamente. Em São Paulo, a distância registrada entre Tarcísio e Haddad mostra ainda que eleições estaduais possuem dinâmica própria e não podem ser interpretadas como simples reprodução da corrida presidencial. Nos últimos dias antes das urnas, o desafio das campanhas passa menos por convencer quem já está politicamente alinhado e mais por disputar o eleitor que aceita separar partido, candidato e cargo antes de definir seu voto.