Movimentos simples realizados diariamente, muitas vezes sem qualquer percepção consciente, estão no centro de uma discussão crescente entre pesquisadores da área da atividade física. O chamado exercício excêntrico, caracterizado pela produção de força enquanto o músculo se alonga, vem sendo apontado por especialistas como uma ferramenta capaz de promover ganhos musculares importantes com menor demanda energética.
A modalidade está presente em ações comuns como descer escadas, sentar de forma controlada em uma cadeira, abaixar um peso durante um treino ou desacelerar o corpo durante uma corrida. Embora faça parte de inúmeros movimentos cotidianos, o exercício excêntrico passou a receber atenção especial da comunidade científica nos últimos anos.
Um dos trabalhos recentes sobre o tema foi publicado no Journal of Sport and Health Science. No artigo, o pesquisador Kazunori Nosaka, da Universidade Edith Cowan, na Austrália, defende que esse tipo de treinamento seja incorporado de forma mais ampla às recomendações voltadas à saúde, classificando a prática como parte do possível “novo normal” da atividade física.
Segundo o professor Paulo Santiago, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, a principal característica está na forma como o músculo atua durante o movimento.
Enquanto na contração concêntrica o músculo encurta para produzir força, na contração excêntrica ele permanece ativo ao mesmo tempo em que se alonga. Esse mecanismo permite controlar cargas e desacelerar movimentos, gerando elevada tensão mecânica sobre a musculatura.
O músculo consegue suportar forças maiores com menor custo energético durante a fase excêntrica do movimento.
De acordo com o especialista, essa combinação favorece adaptações associadas ao aumento da força muscular, ao crescimento da massa muscular e à melhora da capacidade funcional.
O interesse crescente pelo tema está ligado à forma como o organismo responde a esse tipo de estímulo. Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, os benefícios musculares não dependem exclusivamente do gasto calórico ou da intensidade percebida durante o exercício.
O fator determinante está relacionado à tensão mecânica produzida sobre as fibras musculares. Na ação excêntrica, essa tensão pode ser elevada mesmo quando o consumo energético é relativamente menor.
Segundo pesquisadores, o músculo consegue gerar ou suportar cargas maiores utilizando menos oxigênio e menos energia metabólica para produzir o mesmo nível de tensão, característica que vem despertando interesse em programas de treinamento, reabilitação e promoção da saúde.
Embora durante muitos anos tenha sido associado principalmente ao esporte de alto rendimento ou à recuperação de lesões, o exercício excêntrico passou a ser estudado em contextos mais amplos.
Essas atividades podem ser incorporadas à rotina sem necessidade de equipamentos complexos e fazem parte de movimentos já executados pela maioria das pessoas.
A literatura científica também aponta benefícios relacionados ao equilíbrio corporal, à funcionalidade e à preservação da capacidade física ao longo do envelhecimento.
Entre os grupos que mais despertam interesse dos pesquisadores estão os idosos. Com o avanço da idade, a redução gradual da força e da massa muscular pode comprometer a mobilidade, aumentar o risco de quedas e reduzir a autonomia nas atividades diárias.
Nesse contexto, exercícios excêntricos oferecem uma alternativa que permite estimular a musculatura sem exigir níveis excessivos de esforço percebido. Movimentos simples e progressivos podem ser adaptados às condições individuais de cada pessoa.
Além dos efeitos sobre força e massa muscular, estudos citados por especialistas indicam possíveis ganhos relacionados à funcionalidade, ao equilíbrio e à saúde cardiovascular e metabólica.
Segundo a Agenciasp, apesar de ainda ser frequentemente associado à dor muscular tardia, pesquisadores destacam que esse desconforto tende a diminuir conforme o organismo se adapta ao treinamento. Novos estudos continuam avaliando o potencial da modalidade, enquanto especialistas defendem sua inclusão cada vez maior nas recomendações voltadas à saúde e à atividade física em diferentes fases da vida.