O Brasil deu mais um passo para ampliar sua produção de urânio, mineral considerado estratégico para a geração de energia nuclear e cada vez mais valorizado no cenário internacional. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) assinou no fim de maio um contrato com a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar) e com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para estruturar modelos de parceria com a iniciativa privada voltados à exploração mineral.
A movimentação ocorre em um momento de crescimento da demanda por energia e de maior interesse global por minerais considerados essenciais para a transição energética. O objetivo declarado é garantir o abastecimento das usinas nucleares brasileiras e criar condições para que eventuais excedentes possam ser destinados ao mercado internacional.
Segundo o banco, o processo de contratação de consultorias especializadas já foi iniciado. Os estudos técnicos serão utilizados na elaboração dos modelos de parceria que poderão ser adotados futuramente nas áreas pertencentes à INB.
A iniciativa integra o Programa Pró-Urânio, lançado pela INB em 2024 para ampliar a pesquisa geológica e acelerar a identificação de novas reservas do mineral no território nacional.
O projeto prevê o desenvolvimento de cinco áreas localizadas em diferentes regiões do País.
No fim de maio, uma equipe do BNDES esteve na Fábrica de Combustível Nuclear da INB, em Resende, no Rio de Janeiro, para acompanhar o andamento dos trabalhos relacionados ao programa.
O avanço dos estudos ocorre poucos dias após declarações do presidente da INB, Tomás Figueiredo Filho, que afirmou que a empresa precisará sextuplicar sua produção para atender ao crescimento da demanda nacional nos próximos anos.
A discussão também ganhou força após manifestações de interesse da Petrobras em atividades ligadas a minerais estratégicos. Durante evento recente, a presidente da companhia, Magda Chambriard, afirmou que vê potencial em áreas como potássio, minerais críticos e urânio, embora a estatal atualmente não possua autorização para atuar diretamente em mineração.
O urânio voltou ao centro das atenções globais por sua relação com a expansão da energia nuclear e com a busca por fontes de geração de baixa emissão de carbono.
O tema também é defendido pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que tem argumentado a favor da ampliação da atividade mineral e do aumento da participação privada no setor.
O Brasil figura entre os seis países com maiores reservas de urânio do mundo. Apesar disso, menos de um terço do território nacional foi prospectado em busca do mineral, o que alimenta expectativas sobre a descoberta de novas jazidas nos próximos anos.
Atualmente, apenas a mina de Caetité, na Bahia, permanece em operação. O complexo fornece matéria-prima para as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2.
Mesmo com a produção local, parte do processo industrial ainda depende do exterior. O urânio extraído no Brasil precisa ser enviado para outros países para passar pela etapa de transformação em gás, tecnologia ainda inexistente em território nacional.
Outro projeto aguardado pelo setor é Santa Quitéria, no Ceará. Desenvolvido em parceria entre a INB e a Galvani Fertilizantes, o empreendimento prevê a exploração conjunta de urânio e fosfato. Orçado em R$ 2,3 bilhões, o projeto aguarda licença ambiental prévia do Ibama desde 2007.
Quando entrar em operação, a expectativa é produzir 1.050.000 toneladas de fertilizantes fosfatados por ano, volume equivalente a cerca de 25% da demanda das regiões Norte e Nordeste. Também está prevista a produção de 220 mil toneladas de fosfato bicálcico, quantidade correspondente a aproximadamente metade do consumo nordestino desse insumo.
Segundo o Estadao, enquanto os estudos avançam e novas áreas entram no radar do setor, os modelos de parceria conduzidos pelo BNDES deverão servir de base para futuras decisões sobre exploração mineral e expansão da cadeia nuclear brasileira nos próximos anos.