Durante anos, Elon Musk transformou críticas à Califórnia em parte frequente do seu discurso público. O empresário atacou regulações ambientais, medidas sanitárias adotadas durante a pandemia e programas de incentivo ligados à indústria automotiva. Ao mesmo tempo, a Tesla crescia apoiada justamente pelo estado que hoje o bilionário trata como símbolo de excesso regulatório.
Agora, a relação contraditória reaparece de forma ainda mais evidente com o Tesla Semi, caminhão elétrico pesado apresentado pela empresa há nove anos e colocado em produção recentemente em Nevada. O novo veículo entrou no mercado tendo a Califórnia como principal base de sustentação comercial.
O estado americano se tornou o maior centro de incentivos para caminhões de emissão zero nos Estados Unidos. O programa HVIP, voltado à compra de veículos pesados não poluentes, já concedeu mais de 1.200 vouchers ligados ao Tesla Semi.
Segundo dados citados pela Forbes, os incentivos somam US$ 172 milhões, cerca de R$ 842,8 milhões na conversão mencionada pela publicação. O valor supera em mais do dobro o total recebido pelo concorrente mais próximo da Tesla dentro do mesmo programa.
| Item | Valor |
|---|---|
| Incentivos HVIP para o Tesla Semi | US$ 172 milhões |
| Desconto por caminhão | US$ 120 mil |
| Preço do Semi de 300 milhas | US$ 250 mil |
| Preço do Semi de 500 milhas | US$ 290 mil |
Os vouchers reduzem em até US$ 120 mil o custo de cada caminhão elétrico. Com isso, o Tesla Semi se torna mais competitivo diante dos modelos movidos a diesel em um mercado altamente sensível a custos operacionais.
A dependência indireta dos programas estaduais contrasta com declarações feitas por Musk nos últimos anos. Em 2024, o empresário afirmou publicamente que a Tesla não precisava de subsídios e defendeu o encerramento dos incentivos governamentais.
“Acabem com os subsídios. Isso só ajudará a Tesla”, escreveu Musk em 2024.
Apesar da fala, a própria Tesla acumulou mais de US$ 13,5 bilhões ao longo dos últimos 14 anos por meio da venda de créditos ambientais ligados a programas dos Estados Unidos, Califórnia e União Europeia.
Esse sistema permite que montadoras que produzem veículos elétricos comercializem créditos de emissão para fabricantes de carros movidos a combustíveis fósseis que não conseguem atingir metas ambientais determinadas por governos.
Outro fator que ampliou o interesse pelo Tesla Semi foi a alta recente do diesel. Segundo a reportagem, os preços do combustível subiram quase 50% desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em 28 de fevereiro.
O aumento elevou os custos operacionais do transporte rodoviário e tornou caminhões elétricos mais atrativos para empresas de logística interessadas em reduzir despesas no médio prazo.
Segundo a Forbes, mesmo após transferir a sede da Tesla para fora da Califórnia em 2021 e deixar o estado após embates envolvendo restrições da pandemia, Musk continua dependente do mercado californiano para sustentar parte importante da expansão da empresa. A expectativa é que o Tesla Semi tenha justamente na Califórnia seu principal centro de vendas nos próximos anos, impulsionado pela combinação entre incentivos públicos e pressão por redução de emissões no transporte pesado.