A creatina continua sendo um dos suplementos mais utilizados por atletas, praticantes de atividade física e pessoas que buscam melhorar força muscular e desempenho. Nos últimos anos, porém, um novo argumento passou a circular entre usuários e profissionais da área: a possibilidade de o produto atuar também como agente anti-inflamatório.
Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) indica que essa associação ainda não encontra respaldo consistente em estudos realizados com seres humanos. O trabalho, publicado em fevereiro de 2026 na revista Frontiers in Immunology, reuniu dados disponíveis sobre o tema para avaliar se a suplementação realmente reduz processos inflamatórios no organismo.
A equipe científica revisou oito ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, considerados entre os modelos mais robustos para avaliação de intervenções em saúde.
Ao todo, os estudos envolveram 216 participantes com perfis distintos, incluindo atletas, idosos, indivíduos saudáveis e pacientes diagnosticados com osteoartrite.
Os protocolos analisados apresentavam diferenças tanto no tempo de suplementação quanto na quantidade utilizada. As intervenções variaram entre cinco dias e 24 semanas, enquanto as doses oscilaram de 0,07 grama por quilo de peso corporal até 20 gramas por dia.
Para medir possíveis efeitos anti-inflamatórios, os pesquisadores concentraram a análise em marcadores amplamente utilizados na medicina e na pesquisa científica.
Entre eles estavam:
Essas substâncias são frequentemente utilizadas para identificar e monitorar processos inflamatórios no organismo.
Após reunir e comparar os dados dos diferentes estudos, os pesquisadores concluíram que a creatina não promoveu redução estatisticamente significativa dos principais marcadores avaliados.
Na prática, isso significa que os resultados atuais não permitem afirmar que o suplemento exerça ação anti-inflamatória comprovada em humanos.
Segundo os autores, boa parte da crença relacionada a esse possível benefício surgiu a partir de pesquisas realizadas em animais ou em células isoladas em laboratório.
“Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos”, afirmou o pesquisador Vitor Engracia Valenti, da Unesp.
Embora a conclusão geral não tenha confirmado ação anti-inflamatória consistente, alguns estudos identificaram resultados pontuais.
Os casos ocorreram principalmente em atletas submetidos a exercícios físicos extremamente intensos. Nesses cenários específicos, protocolos com doses de até 20 gramas diárias durante cinco dias mostraram redução de determinados marcadores inflamatórios.
Os autores, entretanto, destacam que esses achados isolados não são suficientes para extrapolar o benefício para toda a população.
A revisão não questiona os benefícios já consolidados da creatina.
O suplemento permanece associado ao aumento da disponibilidade de energia para as células musculares, favorecendo exercícios de alta intensidade e força.
Entre os efeitos mais reconhecidos estão:
Os pesquisadores também observaram que os estudos analisados mantiveram um perfil de segurança considerado favorável para o uso da creatina.
Os resultados não indicam que a creatina seja ineficaz ou que seus benefícios tenham sido descartados. O que a pesquisa coloca em discussão é apenas uma das alegações mais recentes associadas ao produto, informou o Metropoles.
Até o momento, as evidências científicas continuam sustentando a utilização da creatina para objetivos ligados à força, desempenho físico, recuperação muscular e manutenção da massa magra. Já a hipótese de ação anti-inflamatória ampla e comprovada ainda depende de novos estudos clínicos para ser confirmada em diferentes grupos da população.