Cinco anos depois da morte que chocou o país, o caso Henry Borel teve nesta quinta-feira (4) seu desfecho mais aguardado. O ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte do menino de 4 anos. Já Monique Medeiros, mãe da criança, teve a acusação de homicídio desclassificada para homicídio culposo por omissão e recebeu perdão judicial.
A decisão encerra um dos processos criminais mais acompanhados da história recente do Brasil e coloca um ponto final na principal etapa de uma investigação que atravessou cinco anos, mobilizou a opinião pública, provocou mudanças na legislação e transformou o nome de Henry Borel em símbolo da luta contra a violência infantil.
A história começou na madrugada de 8 de março de 2021. Henry Borel foi levado ao Hospital Barra D’Or, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, por Monique Medeiros e Dr. Jairinho. A versão apresentada inicialmente era a de que a criança teria sofrido um acidente doméstico dentro do apartamento onde morava com a mãe e o padrasto.
Os médicos, porém, encontraram sinais que chamaram a atenção desde os primeiros momentos. Henry chegou à unidade sem vida e os exames apontaram lesões incompatíveis com a narrativa de uma simples queda. O caso passou rapidamente a ser tratado com desconfiança pelos investigadores.
No mesmo dia, o pai da criança, Leniel Borel, iniciou uma mobilização para buscar respostas sobre a morte do filho. O que parecia um caso de acidente doméstico começava a se transformar em uma investigação de homicídio.
As perícias realizadas pelo Instituto Médico Legal foram decisivas para mudar completamente os rumos do caso. Os exames apontaram que Henry morreu em decorrência de uma hemorragia interna causada por uma grave lesão no fígado.
Além da lesão fatal, os peritos identificaram diversas marcas pelo corpo da criança. As conclusões indicavam que os ferimentos não eram compatíveis com uma queda da cama ou outro acidente doméstico simples.
Com o avanço das análises, investigadores passaram a trabalhar com a hipótese de que Henry havia sido vítima de agressões. A partir desse momento, toda a rotina da família passou a ser examinada.
Nas semanas seguintes, depoimentos de pessoas próximas começaram a surgir no inquérito. Funcionários, conhecidos e pessoas que conviviam com a família relataram episódios que levantaram dúvidas sobre o ambiente em que Henry vivia.
Mensagens obtidas pelos investigadores passaram a integrar o processo. Alguns relatos mencionavam agressões anteriores e situações de sofrimento envolvendo a criança. As informações reforçaram a suspeita de que a morte não havia sido um fato isolado.
Ao mesmo tempo, inconsistências encontradas nos depoimentos prestados por Monique e Jairinho passaram a chamar atenção dos investigadores. As versões apresentadas ao longo da apuração não coincidiam integralmente com as evidências reunidas pela perícia.
Um mês após a morte de Henry, a Polícia Civil realizou uma operação que terminou com a prisão temporária de Monique Medeiros e Dr. Jairinho.
Os investigadores afirmaram que já existiam elementos suficientes para apontar a participação dos dois nos fatos investigados. O caso ganhou repercussão nacional e passou a ocupar espaço constante nos noticiários.
Pouco tempo depois, o Ministério Público apresentou denúncia contra ambos. A acusação sustentava que Henry foi vítima de agressões e que a mãe tinha conhecimento da situação, sem impedir que ela continuasse.
O processo passou então para uma nova fase, marcada por audiências, perícias complementares e disputas jurídicas que se estenderiam por anos.
Durante toda a investigação, Leniel Borel se tornou uma das figuras centrais do caso. O pai de Henry acompanhou cada etapa do processo, participou de atos públicos e manteve a cobrança por respostas e responsabilização dos envolvidos.
Sua atuação ajudou a manter o caso em evidência mesmo após o passar dos anos. A repercussão também contribuiu para a criação da Lei Henry Borel, sancionada em 2022, que ampliou mecanismos de proteção para crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica.
O nome do menino passou a representar uma discussão nacional sobre falhas na proteção infantil e sobre a necessidade de respostas mais rápidas diante de denúncias de violência.
Entre 2021 e 2026, o caso percorreu um longo caminho nos tribunais. Houve recursos, pedidos de nulidade, questionamentos sobre provas, debates técnicos e novas perícias.
As defesas buscaram contestar a interpretação apresentada pela acusação e questionaram conclusões produzidas ao longo da investigação. Já o Ministério Público manteve a tese de que Henry foi vítima de agressões que culminaram em sua morte.
Ao longo desse período, testemunhas foram ouvidas, documentos foram anexados ao processo e diferentes versões dos fatos foram debatidas nos autos.
A demora no julgamento fez com que o caso atravessasse diferentes fases da Justiça até finalmente chegar ao Tribunal do Júri.
Quando o júri popular começou, a expectativa já era de um julgamento extenso. A quantidade de provas, testemunhas e questões técnicas transformou as sessões em uma das mais longas já registradas pelo Tribunal do Júri do Rio de Janeiro.
Durante vários dias, jurados acompanharam depoimentos de peritos, investigadores, familiares e dos próprios acusados. Laudos médicos, exames periciais e reconstruções dos fatos foram apresentados detalhadamente.
A acusação sustentou que Jairinho foi responsável pelas agressões que levaram à morte de Henry e que Monique falhou em proteger o filho. As defesas contestaram essa interpretação e apresentaram seus argumentos ao conselho de sentença.
Ao final das sessões, coube aos jurados decidir qual das versões era compatível com as provas reunidas ao longo de cinco anos.
Na madrugada desta quinta-feira, veio a resposta aguardada desde março de 2021.
Os jurados condenaram Dr. Jairinho, que recebeu pena de 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão. Monique Medeiros teve a acusação desclassificada para homicídio culposo por omissão e recebeu perdão judicial.
A decisão encerra a principal fase judicial de um caso que mobilizou o país, gerou debates sobre proteção infantil, provocou mudanças na legislação e permaneceu no centro da atenção pública por mais de cinco anos.
Mesmo com a possibilidade de recursos nas instâncias superiores, o julgamento desta semana passa a ocupar um lugar definitivo na história criminal brasileira, encerrando um dos capítulos mais marcantes e dolorosos já acompanhados pela Justiça do país.