A Fazenda do Pinhal, construída ao longo da primeira metade do século 19, foi uma importante unidade cafeeira no interior paulista. Tombada em 1981 em nível estadual e reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1987, a propriedade remonta ao período de expansão do café e da escravidão.
Sob administração de Antônio Carlos de Arruda Botelho, que se tornaria conde do Pinhal, e de sua esposa Ana Carolina, a fazenda consolidou-se como um dos centros produtivos da época. A narrativa histórica, no entanto, sempre destacou os proprietários, deixando em segundo plano a presença das famílias negras que viveram e trabalharam no local.
As intervenções arqueológicas identificaram diferentes níveis de uso da senzala ao longo do tempo. O piso original de terra batida foi preservado sob camadas mais recentes de cimento e lajota, associadas a ocupações posteriores por imigrantes europeus e descendentes de trabalhadores.
Nos níveis mais recentes, foram encontrados objetos como uma moeda de 400 réis datada de 1926, bicos de pena, ampolas de vidro e fragmentos de louça. Já no nível mais antigo, surgiram moedas de 1827 e estruturas de combustão associadas a carvão, cinzas e restos orgânicos.
As cerca de nove estruturas de combustão identificadas indicam a presença de fogueiras dentro da senzala. Mais do que atividades domésticas, esses espaços funcionavam como pontos de convivência.
As fogueiras eram usadas para preparo de alimentos, aquecimento e também para encontros, narrativas e práticas culturais
Relatos de moradores posteriores reforçam essa continuidade. Há registros de famílias que ainda utilizavam fogueiras para aquecer ambientes, mantendo práticas que atravessaram gerações.
Entre os objetos encontrados, destacam-se dois cachimbos e contas de colar, elementos associados a práticas religiosas de origem africana. Esses itens indicam a manutenção de tradições culturais mesmo em contextos de repressão.
O uso do cachimbo, embora comum, era frequentemente reprimido no período escravocrata. Já as contas de colar são associadas a rituais e à conexão com ancestralidade, sendo interpretadas como sinais de culto a entidades religiosas.
| Objeto | Período | Indicação |
| Moedas de 1827 | Século 19 | Ocupação original |
| Moeda de 1926 | Século 20 | Uso posterior do espaço |
| Contas de colar | Indeterminado | Práticas religiosas |
A presença desses itens reforça a interpretação de que o espaço não era apenas um local de controle, mas também de construção de vínculos sociais e culturais.
A antiga senzala passou por reformas ao longo do tempo que alteraram sua estrutura e função, contribuindo para o apagamento físico e simbólico de sua história. Muitas dessas edificações foram destruídas ou descaracterizadas sob o argumento de eliminar vestígios de violência.
Pesquisadores envolvidos no projeto destacam que a arqueologia permite recuperar essas narrativas, reinscrevendo o papel das populações negras na formação da região. O trabalho também revelou que moradores recentes da propriedade desconheciam a origem do edifício.
Segundo o Jornal da USP, a pesquisa inclui ainda a participação de representantes de comunidades religiosas e ex-moradores, ampliando as interpretações sobre os achados. Parte do material será analisada em diálogo com casas de Candomblé e Umbanda da região.
Com a conclusão das escavações, o acervo será catalogado e integrado a estudos futuros. A Fazenda do Pinhal, que hoje abriga um centro de pesquisa e recebe visitantes mediante agendamento, deve incorporar os resultados às atividades educativas e a produções audiovisuais em andamento, incluindo um documentário sobre as descobertas.