As negociações envolvendo a delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro entraram em uma fase mais delicada após integrantes do Supremo Tribunal Federal sinalizarem que o acordo só poderá ser homologado se houver previsão clara de ressarcimento integral dos recursos considerados desviados.
Segundo interlocutores ouvidos em Brasília, o entendimento dentro do STF é de que uma colaboração envolvendo crimes financeiros e supostas fraudes no sistema bancário não pode avançar sem compromisso concreto de devolução do dinheiro.
A defesa de Vorcaro apresentou uma proposta preliminar de colaboração à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, mas o conteúdo inicial foi considerado insuficiente pelos investigadores.
A avaliação da PF e da PGR foi de que a primeira tentativa de acordo não trouxe fatos inéditos nem informações capazes de ampliar significativamente a investigação da Operação Compliance Zero.
Segundo investigadores, parte dos relatos já era conhecida pelas autoridades a partir de diálogos, documentos e movimentações financeiras apuradas anteriormente.
Além disso, a proposta inicial não teria citado nomes considerados estratégicos dentro da suposta estrutura investigada.
A defesa respondeu às cobranças entregando novos anexos nesta terça-feira (5). O material foi encaminhado em um pen drive e comunicado oficialmente ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo.
Nada do conteúdo apresentado pode ser utilizado judicialmente enquanto o acordo não for formalizado e assinado pelas partes.
Paralelamente às tratativas da delação, a Polícia Federal mantém uma ampla perícia nos aparelhos eletrônicos apreendidos com o banqueiro.
Ao todo, oito celulares estão sendo analisados por equipes em Brasília, São Paulo e Minas Gerais.
O principal aparelho, já periciado parcialmente, armazenava cerca de 400 gigabytes de dados e aproximadamente 8 mil vídeos. Investigadores consideram que o cruzamento dessas informações com os relatos da delação será decisivo para validar ou derrubar a colaboração.
Segundo fontes ligadas à investigação, aparelhos utilizados por Vorcaro durante o período de prisão domiciliar, no fim do ano passado, não acrescentaram até agora elementos relevantes ao inquérito.
Ainda assim, a PF tenta concluir a extração integral de um dos dispositivos restantes.
A exigência do Supremo vai além da apresentação de depoimentos.
Investigadores afirmam que Vorcaro terá de fornecer informações verificáveis, documentos, registros financeiros e elementos capazes de comprovar os relatos feitos à PF e à PGR.
O ressarcimento integral dos valores investigados também passou a ser tratado como condição indispensável para eventual homologação do acordo.
Até agora, a proposta apresentada pela defesa não detalha cifras nem valores exatos de devolução.
No mês passado, a Polícia Federal ampliou a equipe responsável pela investigação envolvendo o Banco Master.
Novos delegados, agentes, escrivães e peritos passaram a atuar diretamente na análise do material apreendido com Vorcaro.
Nos bastidores, investigadores avaliam que a disputa entre possíveis colaboradores também acelerou as negociações. A intenção do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, de buscar um acordo teria aumentado a pressão sobre a defesa do banqueiro.
Neste momento, não há negociação de colaboração premiada envolvendo o pastor Fabiano Zettel, apontado como braço-direito de Vorcaro nas investigações, revelou o R7.
Segundo o G1, a expectativa das autoridades é concluir a análise técnica dos anexos e dos aparelhos eletrônicos antes de iniciar a fase definitiva de negociação dos benefícios judiciais e das condições financeiras exigidas para o acordo.