Um episódio ocorrido no Parque Villa-Lobos, na Zona Oeste de São Paulo, colocou novamente em discussão uma regra presente há décadas nos parques da capital. A advertência feita a um menino de 7 anos por subir em uma árvore mobilizou especialistas, gestores ambientais e frequentadores desses espaços, ampliando um debate sobre os limites entre preservação, segurança e liberdade infantil.
O caso aconteceu quando a criança brincava próxima aos pais e subiu em uma árvore de pequeno porte dentro do parque. Segundo o relato da família, um agente de segurança se aproximou para informar que a prática não era permitida pelas normas do local. A situação gerou desconforto e rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais.
A proibição não é exclusiva do Villa-Lobos. Regulamentos consultados pela reportagem mostram que a restrição já aparecia em normas de parques paulistanos no início dos anos 2000.
Em diferentes áreas verdes da cidade, visitantes são orientados a não subir, danificar, escrever ou prender objetos em árvores. A justificativa apresentada pelos gestores normalmente envolve dois pontos principais: evitar acidentes e preservar a vegetação.
No caso do Villa-Lobos, administrado por concessão privada desde 2022, a empresa responsável informou que a regra faz parte de um regulamento elaborado antes da concessão e que a orientação dada ao visitante seguiu as normas vigentes, revelou o G1.
O episódio provocou reações de profissionais que estudam desenvolvimento infantil, educação e relação entre crianças e natureza.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, atividades como subir em árvores ajudam a desenvolver coordenação motora, percepção espacial, autonomia, criatividade e capacidade de avaliar riscos.
A discussão não gira apenas em torno de uma árvore específica, mas do espaço disponível para que crianças explorem o ambiente de forma espontânea dentro de uma grande metrópole.
Para pesquisadores da área, experiências comuns em gerações anteriores, como brincar na rua, explorar terrenos vazios, construir cabanas ou escalar árvores, tornaram-se cada vez mais raras nas cidades contemporâneas.
Os defensores das regras argumentam que a restrição busca evitar quedas e reduzir danos ao patrimônio ambiental dos parques.
A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente afirma que as normas não têm o objetivo de afastar crianças da natureza, mas de proteger a vegetação e garantir a segurança dos frequentadores. A pasta destaca ainda a implantação de áreas de lazer produzidas com materiais provenientes do manejo arbóreo e iniciativas voltadas ao público infantil.
Já os críticos da proibição afirmam que preservar a natureza também envolve criar vínculos afetivos entre crianças e o ambiente natural.
Uma das propostas discutidas após o caso é a identificação de árvores adequadas para escalada infantil em áreas específicas dos parques.
A ideia consiste em selecionar exemplares com galhos resistentes, baixa altura e áreas gramadas ao redor, permitindo experiências controladas sem comprometer a segurança dos usuários ou a conservação ambiental.
Defensores dessa alternativa argumentam que o modelo permitiria equilibrar preservação e experiências de contato direto com a natureza.
O debate permanece aberto entre especialistas, gestores públicos, concessionárias e famílias. Enquanto as regras atuais continuam em vigor nos parques da cidade, a repercussão do caso ampliou as discussões sobre possíveis adaptações futuras e sobre o papel dos espaços verdes em uma São Paulo cada vez mais urbanizada.
Foto de capa: Daniel Tavares/PCR/Divulgação.