A aquisição da Casa de Bolos pela AB Mauri Brasil, subsidiária da britânica Associated British Foods, marca uma mudança estratégica pouco comum no setor alimentício brasileiro. Tradicionalmente posicionada como fornecedora de ingredientes para padarias, confeitarias e operações de food service, a companhia decidiu avançar diretamente para o varejo ao assumir o controle de uma das maiores redes de bolos caseiros do país.
O movimento chama atenção porque aproxima uma multinacional avaliada em cerca de R$ 100 bilhões do consumidor final em um segmento considerado resiliente mesmo em períodos de desaceleração econômica. Dona de marcas como Fleischmann e distribuidora de produtos como Ovomaltine e Twinings, a AB Mauri passa agora a controlar uma operação com forte presença em cidades médias e perfil de consumo popular.
Fundada em Ribeirão Preto em 2010 por Sônia Ramos, conhecida como “Vó Sônia”, e seus quatro filhos, a Casa de Bolos construiu sua expansão baseada em um conceito simples: produção padronizada, receitas inspiradas em bolos caseiros e forte conexão emocional com o consumidor.
Em pouco mais de uma década, a marca chegou a mais de 600 franquias distribuídas em 20 estados brasileiros e mais de 250 cidades, além de uma unidade em Lisboa. Segundo os números divulgados pelas empresas, a rede faturou R$ 720 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 800 milhões em 2026.
A operação se transformou em uma das maiores redes especializadas do segmento no país. A projeção para 2026 inclui aproximadamente 700 lojas em funcionamento e produção diária estimada em 60 mil bolos.
O modelo de negócio chamou atenção do mercado por reunir características consideradas estratégicas no atual cenário econômico brasileiro:
Em meio a juros elevados e pressão sobre o consumo discricionário, produtos considerados pequenos luxos acessíveis passaram a ganhar relevância no franchising de alimentação. O bolo caseiro entrou nesse grupo ao manter percepção de conforto, tradição e consumo afetivo com custo relativamente baixo.
Ao adquirir a Casa de Bolos, a AB Mauri deixa de atuar apenas como fornecedora de insumos para assumir também uma operação que consome ingredientes fabricados pela própria companhia. Trata-se de um processo de verticalização ainda raro no setor alimentício brasileiro, especialmente entre empresas historicamente voltadas ao mercado B2B.
“O que nos atraiu foi precisamente a autenticidade da marca e a solidez do modelo que a Casa de Bolos construiu ao longo dos anos”, afirmou Danilo Nogueira, diretor-geral da AB Mauri Brasil.
Segundo as empresas, a rede continuará operando de forma independente, mantendo marca, posicionamento e modelo de franquias. A decisão é vista como estratégica porque o principal ativo da Casa de Bolos está justamente na percepção de autenticidade construída junto ao consumidor.
A compra acontece em um momento de expansão do franchising brasileiro. Dados da Associação Brasileira de Franchising apontam que o setor faturou R$ 102,6 bilhões apenas no estado de São Paulo em 2025, crescimento de 10,7%.
Dentro desse cenário, redes de alimentação com operação simplificada passaram a ocupar espaço relevante principalmente em cidades médias, onde o consumo doméstico costuma apresentar maior resistência a oscilações econômicas.
| Indicador | Número divulgado |
|---|---|
| Faturamento da Casa de Bolos em 2025 | R$ 720 milhões |
| Projeção para 2026 | R$ 800 milhões |
| Franquias em operação | Mais de 600 |
| Produção diária | 60 mil bolos |
Segundo a Forbes, o negócio também reforça uma tendência global entre grandes grupos alimentícios: reduzir a dependência exclusiva da indústria tradicional e buscar marcas com relação emocional mais direta com o consumidor. Em um mercado pressionado por mudanças de hábito e saturação de produtos industrializados, empresas passaram a enxergar valor em operações que combinam escala nacional com percepção artesanal e identidade afetiva consolidada.