A transformação do mercado automotivo mundial ganhou velocidade maior do que parte das previsões internacionais consegue acompanhar. Um relatório publicado pela Agência Internacional de Energia, a IEA, estima que 30% dos carros vendidos no mundo em 2026 serão eletrificados, mas os números do Brasil mostraram um cenário mais agressivo do que o documento registrou.
O estudo Global EV Outlook aponta que os veículos eletrificados chegaram a 20 milhões de unidades vendidas mundialmente em 2025, crescimento de 20% na comparação anual. Segundo a agência, 60% dessa produção saiu da China, consolidando o país como o principal centro global da indústria elétrica automotiva.
No caso brasileiro, porém, os dados apresentados pela IEA já nasceram pressionados pela velocidade das mudanças locais. O relatório afirma que 9% dos veículos vendidos em 2025 no país eram eletrificados. Os números cruzados entre Fenabrave e ABVE indicam outro cenário.
Em janeiro de 2025, o Brasil produziu 123.359 veículos, dos quais 12.556 já eram elétricos. Na prática, isso representava 10% dos emplacamentos naquele momento. No fechamento anual, os eletrificados atingiram 210.732 unidades, sendo 33.905 elétricos, percentual que chegou a 16%.
A divergência entre os números virou um dos pontos mais relevantes do relatório. Enquanto a IEA contabilizou 180 mil veículos eletrificados no Brasil, a ABVE registrou 221.624 emplacamentos, diferença superior a 41 mil unidades.
Segundo dados da Fenabrave, o mercado brasileiro encerrou 2025 com 1.996.531 veículos entrando em circulação. Com isso, os eletrificados fecharam o ano representando cerca de 11% do total.
Mesmo assim, os números envelheceram rapidamente. Em abril de 2026, os eletrificados já alcançavam 20% dos emplacamentos no país, avanço impulsionado principalmente pelos modelos totalmente elétricos, que começaram a superar os híbridos plug-in em vendas mensais.
O próprio relatório destaca que o Brasil era um dos poucos mercados onde híbridos plug-in vendiam mais que elétricos puros, cenário que mudou rapidamente no começo deste ano.
O avanço brasileiro ocorre mesmo em meio ao retorno gradual do imposto de importação para veículos chineses, medida que deve voltar ao patamar integral de 35%. A IEA observa que outros países latino-americanos seguiram caminho contrário, oferecendo incentivos e descontos para importação de elétricos.
Ainda assim, o tamanho do mercado brasileiro mantém o país como protagonista regional. Segundo o relatório, Brasil e México concentraram 75% dos emplacamentos de veículos eletrificados na América Latina nos últimos anos.
Os dados da associação brasileira mostram que os emplacamentos passaram de 39.858 unidades no primeiro trimestre de 2025 para 83.252 no mesmo período de 2026.
Segundo o Evdrops, enquanto isso, parte do mercado global desacelerou. A IEA afirma que as vendas mundiais tiveram retração anual de 8%, movimento associado à redução de incentivos nos Estados Unidos e também na China, justamente os dois maiores polos do setor.
A agência também relaciona o avanço dos elétricos à instabilidade internacional envolvendo petróleo. O Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte da commodity, aparece como fator central para mudanças recentes no setor energético.
O diretor executivo da IEA, Fatih Birol, afirmou que o crescimento dos veículos elétricos passou a funcionar como mecanismo de proteção diante do maior choque de fornecimento de petróleo da história recente.
Segundo ele, a redução contínua do custo das baterias e possíveis respostas regulatórias à crise energética devem ampliar ainda mais o avanço global dos eletrificados.
A projeção da agência indica que, mantidas as políticas atuais, o mundo poderá atingir 510 milhões de veículos elétricos circulando em 2035. Hoje, a frota global gira em torno de 80 milhões. A previsão considera um cenário de aproximadamente 2 bilhões de veículos em circulação naquele período.