Quase 83 milhões de brasileiros convivem atualmente com algum tipo de dívida, segundo dados citados em reportagem exibida pelo Fantástico. Em meio ao aumento da inadimplência, que atingiu o maior patamar desde 2011, cresceram também os anúncios que prometem retirar restrições do nome de consumidores em poucos dias e devolver acesso a crédito, empréstimos e financiamentos.
O que as investigações começaram a revelar, porém, é um mecanismo muito diferente da ideia de quitação ou renegociação das dívidas. Em vez de eliminar os débitos, o sistema atuaria para ocultar temporariamente a existência deles nos cadastros consultados pelo mercado.
Segundo a apuração apresentada pela reportagem, associações que afirmam atuar na defesa dos consumidores entram com ações coletivas na Justiça pedindo que órgãos de proteção ao crédito deixem de exibir registros negativos vinculados aos participantes dessas ações.
Na prática, quando instituições financeiras, empresas ou comerciantes realizam consultas aos bancos de dados, a resposta poderia indicar ausência de restrições mesmo diante da existência de dívidas pendentes.
As dívidas não desaparecem. Elas continuam existindo e permanecem passíveis de cobrança, negociação ou pagamento.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que um dos argumentos mais utilizados nesses processos é a suposta ausência de comunicação prévia ao consumidor sobre a negativação, requisito previsto na legislação de defesa do consumidor.
As investigações, entretanto, apontam que grande parte dos consumidores envolvidos teria recebido regularmente as notificações antes da inclusão dos registros negativos, revelou o G1.
O avanço das apurações levou autoridades a investigar não apenas associações ligadas aos processos, mas também a atuação de advogados e decisões judiciais relacionadas à concessão de liminares.
De acordo com promotores e especialistas entrevistados, o modelo teria se estruturado por meio da captação de listas de consumidores endividados que passariam a integrar associações utilizadas posteriormente para ingressar com ações coletivas.
As investigações também analisam a origem dessas listas e a forma como consumidores eram incorporados às entidades responsáveis pelas ações judiciais.
Os registros analisados mostram que as ações relacionadas ao chamado limpa-nome estavam concentradas em 2023 principalmente no Piauí, na Paraíba e em Pernambuco.
Dois anos depois, o volume de processos se expandiu para outros estados, indicando uma disseminação do modelo investigado.
Segundo especialistas, o crescimento acelerado chamou a atenção de órgãos públicos, entidades do setor de crédito e cartórios de protesto, que passaram a identificar repetição de pedidos semelhantes em diferentes regiões do país.
Um dos números que mais chamou atenção durante as investigações foi a estimativa relacionada ao volume de créditos envolvidos.
De acordo com representantes dos cartórios de protesto, aproximadamente R$ 130 bilhões em dívidas teriam sido alcançados por medidas judiciais desse tipo ao longo dos últimos cinco anos.
O principal temor apontado por especialistas é que consumidores com débitos ocultados consigam contrair novas obrigações financeiras sem que credores tenham acesso ao histórico completo de inadimplência.
Essa situação pode ampliar riscos para empresas, instituições financeiras e para o próprio mercado de crédito, já que as obrigações permanecem existindo mesmo quando deixam temporariamente de aparecer em consultas cadastrais.
Enquanto as investigações avançam em diferentes estados, autoridades seguem analisando a atuação das associações, a concessão das liminares e a eventual responsabilidade de participantes envolvidos nos processos que deram origem ao chamado esquema da indústria do limpa-nome.