A síndrome alfa-gal, uma condição associada à picadas de carrapatos, entrou no radar de pesquisadores e médicos após o crescimento de casos ligados a reações graves contra carne vermelha, laticínios e produtos derivados de mamíferos. A doença ganhou atenção nos Estados Unidos depois de estudos apontarem expansão geográfica dos casos e aumento de diagnósticos em estados onde a condição era considerada rara até poucos anos atrás.
O quadro ocorre após a exposição à molécula galactose-alfa-1,3-galactose, conhecida como alfa-gal. Esse açúcar está presente na maioria dos mamíferos, mas não em humanos. Quando certos carrapatos picam uma pessoa, a saliva do parasita pode sensibilizar o sistema imunológico e desencadear uma reação alérgica que surge posteriormente ao consumo de carne vermelha ou produtos derivados.
Diferentemente de alergias alimentares tradicionais, que costumam provocar sintomas poucos minutos após a ingestão, a síndrome alfa-gal apresenta uma característica que dificulta o diagnóstico: a demora para o surgimento das reações.
Segundo especialistas ouvidos em estudos publicados nos EUA, os sintomas podem aparecer entre duas e seis horas após o consumo de carne bovina, suína, cordeiro, leite ou alimentos preparados com gordura animal. Em alguns pacientes, o quadro envolve apenas sintomas digestivos. Em outros, a reação pode evoluir rapidamente.
Pesquisadores relatam que alguns pacientes precisaram de atendimento em unidades de terapia intensiva após episódios severos de anafilaxia, condição que pode comprometer a respiração e provocar risco imediato de morte.
“Há um atraso na reação. Muitas pessoas não associam imediatamente a carne ao quadro alérgico”, afirmou o pesquisador Cosby Stone, da Universidade Vanderbilt, em entrevista reproduzida pela National Geographic.
Nos Estados Unidos, o principal transmissor associado à síndrome é o carrapato-estrela-solitária, identificado por uma marca clara semelhante a uma estrela em seu dorso. O parasita é encontrado principalmente em regiões do sul, centro e leste do país, mas estudos recentes apontam expansão territorial ligada ao aumento das temperaturas.
Dados analisados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA mostraram crescimento de exames positivos para alfa-gal. O número passou de 13.371 registros positivos em 2017 para 18.885 em 2021, segundo levantamento citado pela National Geographic.
Especialistas avaliam que o aquecimento climático pode favorecer a disseminação dos carrapatos para áreas mais ao norte e oeste do território americano. Além disso, o aumento do contato humano com regiões de mata e vegetação alta amplia o risco de exposição.
O diagnóstico da síndrome alfa-gal costuma envolver exames de sangue e testes alérgicos. Médicos apontam que muitos pacientes demoram a descobrir a origem do problema porque a picada do carrapato normalmente não causa dor e pode passar despercebida.
Outro fator que complica a identificação é a variedade de reações. Nem todos os pacientes apresentam os mesmos sintomas ou respondem da mesma forma aos alimentos.
| Fator que dificulta diagnóstico | Impacto |
| Reação tardia | Paciente não associa alimento ao sintoma |
| Picada imperceptível | Muitos não sabem que foram picados |
| Sintomas variados | Quadro pode ser confundido com outras doenças |
A Cleveland Clinic informa que a condição também pode estar ligada a medicamentos produzidos com componentes de origem animal, além de gelatinas, certos cosméticos e alguns tipos de vacinas.
Até o momento, não há vacina ou tratamento capaz de eliminar a síndrome alfa-gal. O controle depende principalmente da redução da exposição aos gatilhos alimentares e da prevenção contra novas picadas de carrapatos.
Médicos podem indicar anti-histamínicos e dispositivos de adrenalina para casos de emergência. Em alguns pacientes, tratamentos mais recentes, como imunoterapia oral e medicamentos biológicos, passaram a ser estudados para reduzir o risco de reações graves.
Especialistas afirmam que algumas pessoas conseguem voltar a consumir determinados alimentos após um ou dois anos sem novas picadas de carrapatos, mas o processo depende de acompanhamento médico contínuo e avaliação individualizada.
Segundo a Nationalgeographicbrasil, a orientação atual para moradores de regiões de risco inclui uso de repelentes, roupas compridas em áreas de mata, inspeção do corpo após atividades ao ar livre e remoção rápida de carrapatos encontrados na pele. Estudos seguem em andamento nos Estados Unidos para entender por que algumas pessoas desenvolvem a síndrome após a picada enquanto outras não apresentam qualquer reação.