A tentativa de um passageiro de abrir a porta de um avião da Latam durante um voo entre São Paulo e Frankfurt voltou a levantar dúvidas sobre um dos temas mais recorrentes entre passageiros de aeronaves comerciais: afinal, é possível abrir uma porta no meio do voo.
O episódio aconteceu no voo LA8070, que partiu de Guarulhos no dia 10 de maio com destino à Alemanha. Segundo relatos, um passageiro chileno tentou manipular a porta da aeronave durante o trajeto, mas foi contido pela tripulação antes de provocar qualquer alteração operacional no voo. Depois da contenção, o homem ainda teria feito ataques racistas e homofóbicos contra um comissário.
Apesar do susto dentro da cabine, especialistas em aviação afirmam que a abertura de portas em altitude de cruzeiro é fisicamente impossível em aeronaves comerciais modernas. O principal motivo está no sistema de pressurização da cabine.
As aeronaves comerciais voam em altitudes onde a pressão atmosférica externa é extremamente baixa. Para garantir que passageiros e tripulantes consigam respirar normalmente, a cabine é pressurizada artificialmente.
Na prática, isso cria uma diferença enorme entre a pressão interna e a pressão do lado de fora da aeronave. Essa força empurra a porta contra a própria estrutura do avião com intensidade suficiente para impedir qualquer tentativa humana de abertura.
Especialistas costumam comparar o sistema a uma panela de pressão. Em muitos modelos de avião, a porta precisa primeiro ser puxada levemente para dentro antes de ser deslocada para fora ou lateralmente. Em altitude elevada, a pressão interna mantém a estrutura completamente travada contra o batente da fuselagem.
Mesmo que alguém consiga movimentar a maçaneta ou acionar parcialmente algum mecanismo, a força exercida pela pressurização impede a abertura física da porta.
A situação muda apenas quando as pressões interna e externa se aproximam. Isso normalmente ocorre durante o pouso, em solo ou em altitudes muito baixas, quando a cabine passa pelo processo gradual de despressurização.
Por esse motivo, saídas de emergência e portas principais podem ser operadas normalmente após a aeronave estacionar. Durante o voo em cruzeiro, porém, a pressão transforma a estrutura em um sistema praticamente impossível de ser vencido manualmente.
Depois do incidente, o passageiro foi imobilizado pela tripulação e o voo prosseguiu normalmente até Frankfurt. Dias depois, ao retornar ao Brasil em uma conexão no Aeroporto de Guarulhos, o homem acabou preso preventivamente pela Polícia Federal.
A Agência Nacional de Aviação Civil considera a tentativa de interferir nos sistemas de segurança da aeronave uma infração grave de indisciplina a bordo. Entre as consequências previstas estão multas administrativas que podem chegar a R$ 17,5 mil e inclusão em listas de restrição de embarque.
A defesa do executivo chileno afirmou que o episódio teria ocorrido durante um surto psicótico. Segundo os advogados, ele realiza tratamento psiquiátrico há 13 anos e não teria clareza sobre os acontecimentos registrados dentro da aeronave.
Em nota oficial, a Latam informou que repudia práticas discriminatórias e violentas, incluindo racismo, xenofobia e homofobia. A companhia também afirmou que colabora integralmente com a Polícia Federal na investigação do caso.
Segundo a empresa, o funcionário alvo dos ataques recebeu acolhimento psicológico e suporte jurídico após o episódio ocorrido durante o voo entre São Paulo e Frankfurt.
Segundo a CNN, o caso segue em análise na Justiça Federal enquanto autoridades apuram tanto a conduta do passageiro dentro da aeronave quanto os desdobramentos criminais relacionados às agressões verbais registradas durante o trajeto.