A morte de Augusto César Graça Mello, conhecido como Guto Graça Mello, aos 78 anos, interrompe uma trajetória diretamente ligada à construção da trilha sonora da televisão no país. O produtor musical morreu nesta terça-feira (5), no Rio de Janeiro, após complicações decorrentes de uma queda sofrida semanas antes.
Internado por mais de um mês no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, ele teve como causa da morte uma parada cardiorrespiratória, segundo familiares. O velório foi agendado para ocorrer entre 13h e 15h desta quarta-feira (6), no Cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul da capital fluminense.
Nascido em 29 de abril de 1948, no Rio de Janeiro, Graça Mello cresceu em meio a um ambiente artístico. Era filho dos atores Stella Graça Mello e Octávio Graça Mello, o que contribuiu para sua aproximação precoce com o universo cultural.
Ele chegou a iniciar o curso de arquitetura na UFRJ, mas abandonou a graduação para se dedicar integralmente à música. Estudou violão, passou pela escola ProArte e começou a compor ainda nos anos 1960.
Nesse período, estabeleceu parcerias com nomes como Mariozinho Rocha, tendo composições gravadas por artistas como Elis Regina e Nara Leão. Também viveu no exterior, onde integrou o grupo Vox Populi, com apresentações no México.
O retorno ao Brasil marcou o início de sua atuação na televisão. Em 1972, ingressou na Globo como produtor musical do programa Viva Marília, apresentado por Marília Pêra.
No ano seguinte, assinou sua primeira trilha de novela, Cavalo de Aço, em parceria com Nelson Motta. O próprio Graça Mello classificou posteriormente o trabalho como um início problemático, destacando a falta de experiência no formato.
A partir dessa fase, passou a atuar de forma decisiva na construção da identidade sonora de novelas brasileiras. Foi responsável por trilhas de produções como Gabriela, Pecado Capital, Saramandaia e Estúpido Cupido.
Em Gabriela, articulou a abertura com Dorival Caymmi e incluiu a música Alegre Menina, composta por Djavan a partir de poema de Jorge Amado.
Um dos episódios mais citados de sua carreira ocorreu em 1975, na novela Pecado Capital. Convocado poucos dias antes da estreia, montou praticamente toda a trilha em três dias, incluindo a encomenda da música de abertura a Paulinho da Viola, que compôs o tema em poucas horas.
Paralelamente à televisão, Graça Mello teve papel central na gravadora Som Livre, onde chegou ao cargo de gerente-geral. Sua atuação foi estratégica ao utilizar as trilhas de novelas como plataforma de lançamento de artistas.
Além disso, assinou trilhas de mais de 30 filmes e foi o autor do tema de abertura do Fantástico, uma das composições mais reconhecidas da televisão brasileira.
Graça Mello deixou a Globo e a Som Livre em 1989, mas seguiu atuando na produção musical, com trabalhos em discos, trilhas e jingles. Nos últimos anos, acompanhava novelas como espectador, com atenção especial às trilhas sonoras.
Casado com a atriz Sylvia Massari, ele vinha sendo acompanhado pela família durante o período de internação. A atriz chegou a publicar mensagens nas redes sociais durante o tratamento, relatando a expectativa de recuperação.
Segundo o G1, o produtor afirmava que seu principal desafio ao longo da carreira era equilibrar exigências comerciais com qualidade artística, reconhecendo o papel das novelas como ferramenta de difusão da música brasileira.
O impacto de sua atuação permanece presente na estrutura atual da indústria audiovisual, especialmente na relação entre televisão e mercado fonográfico, área que segue em transformação com novas plataformas e modelos de distribuição.