Flores espalhadas pelo espaço, mesas ocupadas por amigos e familiares, música ao vivo e um anfitrião caminhando de um lado para outro para receber cada convidado. Quem chegava ao antigo galpão de uma cervejaria em Campo Grande neste sábado (30) dificilmente imaginava estar diante de um velório.
O próprio homenageado tratava de explicar a situação logo nos primeiros cumprimentos.
“Hoje é meu velório.”
A frase provocava surpresa, mas também sorrisos. Aos 49 anos, o advogado e turismólogo Tiago Pitthan Martins Pitthan decidiu reunir as pessoas mais importantes de sua vida para uma despedida diferente de tudo o que havia imaginado antes de receber o diagnóstico de adenocarcinoma gástrico, um tipo de câncer de estômago que já não possui possibilidade de cura.
Em vez do silêncio normalmente associado a esse tipo de cerimônia, o ambiente foi tomado por conversas, reencontros e demonstrações de carinho. Abraços demorados se misturavam a lembranças compartilhadas por amigos de diferentes fases da vida. Em vários momentos, lágrimas apareceram, mas quase sempre acompanhadas por risadas e histórias que arrancavam novas emoções dos presentes.
Tiago fazia questão de reforçar que não via aquele encontro como uma despedida.
Segundo ele, a proposta era celebrar a vida enquanto ainda podia participar de cada conversa, ouvir cada homenagem e agradecer pessoalmente por cada demonstração de afeto.
A origem da ideia remonta a agosto de 2024, quando acompanhava o velório do próprio pai. Durante a cerimônia, ouviu relatos emocionados de familiares e amigos, histórias que ajudavam a reconstruir a trajetória de uma vida inteira. Apesar da beleza daquele momento, uma observação ficou marcada.
Para Tiago, a pessoa que mais conhecia aquelas histórias não estava ali para ouvi-las.
A reflexão permaneceu com ele durante meses. A partir daquele dia, decidiu que não gostaria de faltar ao próprio velório.
O que inicialmente seria um encontro simples entre pessoas próximas ganhou proporções maiores à medida que sua história começou a circular pela imprensa. A repercussão fez com que pessoas de diferentes regiões do país acompanhassem sua trajetória e passassem a enxergar no evento algo maior do que uma celebração particular.
Entre os convidados estavam a servidora pública Lícia Freitas, de 43 anos, e o servidor público Ramon Santos, de 56 anos. O casal saiu de João Pessoa, na Paraíba, e viajou até Campo Grande exclusivamente para participar do encontro.
A história de Tiago despertou identificação imediata em Lícia. O pai dela enfrentou o mesmo tipo de câncer e, segundo contou, também encarou a doença com coragem até os últimos dias.
Para Ramon, a principal mensagem transmitida pelo anfitrião está na forma como ele escolheu lidar com a proximidade da morte. Em vez de permitir que o diagnóstico determinasse completamente sua rotina, decidiu continuar construindo experiências e criando memórias.
A descoberta da doença aconteceu durante a virada de 2023 para 2024, em Bonito. Durante uma ceia de réveillon, Tiago percebeu que não conseguia se alimentar normalmente. O desconforto levou a uma série de exames que se estenderam pelos meses seguintes.
Quando o diagnóstico finalmente chegou, a expectativa inicial era de que uma cirurgia pudesse resolver o problema. Mais tarde, porém, os médicos constataram que o câncer já havia se espalhado para outras partes do corpo.
A notícia trouxe uma mudança profunda de perspectiva.
Segundo Tiago, receber um nome para aquilo que enfrentava trouxe uma sensação inesperada. Pela primeira vez, sabia exatamente contra o que estava lutando. Desde então, passou a repetir uma frase que se tornou parte de sua forma de encarar a doença: ele tem câncer, mas não permite que o câncer tenha sua vida.
Durante toda a celebração, o anfitrião circulou entre os convidados usando um figurino colorido escolhido especialmente para a ocasião. Conversou com amigos de infância, colegas de trabalho, familiares e até desconhecidos que decidiram comparecer após conhecer sua história.
Ao longo da tarde, uma mensagem se repetiu em diferentes conversas. Para ele, existe uma diferença importante entre estar morrendo e estar vivendo. A doença faz parte de sua realidade, mas não ocupa todo o espaço de sua existência.
“Eu quero abraçar e ser abraçado. Eu quero receber carinho, dar carinho. Eu quero rir. Eu quero chorar de emoção.”
Segundo o G1, ao longo da tarde, convidados continuaram chegando ao local para participar da homenagem em vida, uma iniciativa que nasceu de uma experiência familiar, ganhou repercussão nacional e transformou um diagnóstico terminal em uma oportunidade de encontro, afeto e convivência.