Estudante de Caieiras xingou colega em grupo de WhatsApp e vai pagar R$ 2 mil na Justiça

Uma discussão universitária sobre ações sociais saiu do campo das ideias e foi parar no Judiciário. Em Caieiras, a Justiça analisou o caso e fixou indenização por ofensas homofóbicas em grupo digital. Durante o debate, um estudante enviou áudios com xingamentos e insinuações depreciativas dirigidas a um colega. As mensagens foram publicadas em um grupo de WhatsApp com vários participantes.
Publicado em Direito e Leis dia 17/02/2026 por Alan Corrêa

Gabriela de Oliveira Thomaze, da Vara do Juizado Especial Cível de Caieiras (SP), condenou um estudante universitário a pagar R$ 2 mil por enviar áudios com ofensas homofóbicas em grupo de WhatsApp, decisão publicada em 17 de fevereiro de 2026 e que reforça o dever de indenizar quando a dignidade é violada em ambiente coletivo digital.

Pontos Principais:

  • Juíza de Caieiras condenou estudante por ofensas homofóbicas em grupo de WhatsApp.
  • Indenização fixada em R$ 2 mil no processo 0000596-83.2025.8.26.0106.
  • Magistrada rejeitou argumento de que falas ocorreram no calor da discussão.
  • Envio das mensagens em grupo coletivo agravou o dano moral.
  • Sentença reforça proteção à dignidade e à honra em ambiente digital.

O caso nasceu de uma discussão acadêmica aparentemente comum. Dois estudantes participavam de um grupo criado para organizar um trabalho universitário. O debate girava em torno da proposta de oferecer um prêmio para estimular a participação de pessoas em situação de vulnerabilidade em ações sociais. A divergência, que poderia ter ficado no campo das ideias, escalou para ataques pessoais.

Segundo a sentença, o réu criticou a iniciativa afirmando que seria “gastar dinheiro com noia”. Em seguida, enviou áudios direcionados ao colega com xingamentos de cunho homofóbico e insinuações sexuais depreciativas, sugerindo que ele oferecesse o próprio corpo como recompensa. As mensagens foram compartilhadas no próprio grupo, diante de outros integrantes.

⚖️ Dignidade não é detalhe

Ao analisar o processo 0000596-83.2025.8.26.0106, a magistrada afastou a tese de que as falas ocorreram “no calor da discussão”. Para ela, a liberdade de expressão não autoriza ataques à identidade ou à orientação sexual de alguém. A decisão fundamenta-se na proteção à dignidade da pessoa humana e à honra, princípios constitucionais que não admitem relativização quando há discriminação.

“Ofensas baseadas em gênero podem configurar dano moral e gerar o direito à indenização”, registrou a juíza na sentença.

A avaliação levou em conta não apenas o conteúdo das falas, mas o contexto. O ambiente virtual coletivo ampliou o alcance das ofensas e potencializou o constrangimento. Em grupos digitais, a exposição é imediata e o registro permanece.

📱 Grupo de WhatsApp também é espaço público

A decisão ressalta que o fato de as mensagens terem sido enviadas em grupo com terceiros agravou o dano. Não se tratava de conversa privada entre duas pessoas, mas de conteúdo compartilhado em ambiente comum, com circulação entre colegas.

Na prática, a Justiça reconheceu que o constrangimento não se limita ao momento da ofensa. Ele se projeta na convivência acadêmica, na rotina universitária e na própria reputação da vítima.

O autor da ação pediu R$ 10 mil por danos morais. O Juizado fixou a indenização em R$ 2 mil, valor considerado suficiente para compensar o abalo e cumprir função pedagógica.

Dados do Processo Informação Órgão julgador Vara do Juizado Especial Cível de Caieiras Juíza Gabriela de Oliveira Thomaze Data da decisão 17/02/2026 Valor pedido R$ 10 mil Valor fixado R$ 2 mil Número do processo 0000596-83.2025.8.26.0106

🧭 Debate de ideias não autoriza agressão

A defesa alegou provocação e pedido de desculpas posterior. O argumento não prosperou. A sentença destaca que a convivência social exige educação e respeito, independentemente de divergências. O conflito de opiniões não legitima o ataque à identidade.

O entendimento acompanha posicionamentos consolidados na jurisprudência brasileira sobre discriminação baseada em gênero e orientação sexual. A Justiça tem reconhecido que esse tipo de conduta ultrapassa o mero aborrecimento cotidiano e atinge a esfera íntima da vítima.

Para quem acompanha discussões em grupos digitais — sejam acadêmicos, profissionais ou familiares — o caso serve de alerta. O que é dito em áudio ou mensagem escrita pode ter consequências concretas. A informalidade da conversa não elimina a responsabilidade civil.

O processo expõe um ponto sensível do cotidiano contemporâneo: a rapidez com que divergências se transformam em agressões e a falsa sensação de que o ambiente virtual dilui limites. A decisão de Caieiras reafirma que não há zona livre de responsabilidade quando a honra é atingida.