A proposta de instalar um incinerador de resíduos sólidos na região de Perus, na zona noroeste de São Paulo, recoloca o bairro no centro de um debate que envolve histórico de impactos ambientais, desigualdade territorial e decisões sobre o destino do lixo urbano.
Moradores relatam que a discussão atual revive experiências passadas marcadas por problemas ambientais. Até 2007, o Aterro Bandeirantes operou por quase três décadas na região. Mesmo após o encerramento das atividades, outras operações industriais mantiveram a presença de odores e incômodos constantes.
A convivência prolongada com impactos ambientais criou um padrão de desconfiança entre moradores. A lembrança de problemas anteriores influencia diretamente a reação ao novo projeto.
“Passei a infância sentindo o cheiro do lixão”, relata uma moradora da região, ao lembrar da rotina durante o funcionamento do aterro.
O histórico local é citado por lideranças comunitárias como fator central para a mobilização contra a proposta atual.
Segundo o Periferiaemmovimento, o incinerador integra o chamado Ecoparque Bandeirantes, que reúne diferentes tecnologias de tratamento de resíduos com potencial de geração de energia.
Entre os métodos previstos estão:
A Prefeitura afirma que a cidade produz cerca de 12 mil toneladas de resíduos por dia, com menos de 3% sendo reciclados.
Especialistas e organizações apontam divergências sobre a viabilidade do projeto. Estudos independentes indicam riscos associados à emissão de poluentes e ao impacto sobre a saúde pública.
Entre os principais pontos levantados estão:
A localização também é questionada. O terreno escolhido fica próximo ao Parque Anhanguera e a cerca de dois quilômetros da Terra Indígena Jaraguá.
O processo de discussão pública também passou a ser alvo de críticas. Moradores relatam dificuldades de acesso às audiências e apontam falta de transparência na comunicação do projeto.
Há relatos de distribuição de materiais informativos em escolas sem aviso prévio às famílias e denúncias sobre participação de pessoas externas à região em audiências públicas.
“Os moradores não conseguiram entrar”, afirmou um integrante de movimento local durante uma das reuniões.
A execução do projeto está vinculada às concessionárias responsáveis pela coleta e tratamento de resíduos na cidade. Em 2024, os contratos dessas empresas foram renovados sem licitação.
Uma auditoria do Tribunal de Contas do Município apontou problemas na execução dos serviços, incluindo baixa eficiência na reciclagem.
| Produção diária de lixo | 12 mil toneladas |
| Taxa de reciclagem | Menos de 3% |
| Unidades previstas | Perus, Santo Amaro, São Mateus |
A administração municipal sustenta que as unidades utilizam tecnologia moderna de controle de emissões e que o projeto segue o processo de licenciamento ambiental.
As empresas envolvidas afirmam que realizaram ações de comunicação e que houve participação da comunidade nas etapas já realizadas.
Apesar disso, o debate segue aberto, com mobilizações locais e questionamentos técnicos em andamento. O projeto ainda passa por etapas de licenciamento ambiental e análises regulatórias, sem definição final sobre a implementação.