Leitura longa, nota alta: estudo aponta que páginas “de verdade” puxam o desempenho em matemática e ciências

A fotografia do levantamento é dura, mas não é abstrata. Ela cabe na rotina de qualquer casa em que a mochila chega pesada e a atenção chega cansada. No fim do dia, há quem consiga abrir um livro e ficar ali, no silêncio que a leitura pede. E há quem só consiga o “tamanho de um post”, porque a escola não puxou, a família não conseguiu, a tela ganhou, ou tudo isso junto. O estudo joga luz nessa diferença e mostra que ela aparece no boletim.
Publicado em Educação dia 26/01/2026 por Alan Corrêa

O hábito de leitura aparece como um divisor de águas nas notas de adolescentes: um estudo do Iede com a plataforma Árvore, baseado nos microdados do Pisa 2018, indica que quem encara textos com mais de 100 páginas tem mais chance de atingir níveis elevados de proficiência em leitura e também de ir melhor em matemática e ciências — com impacto direto na vida escolar e no futuro de trabalho.

A fotografia do levantamento é dura, mas não é abstrata. Ela cabe na rotina de qualquer casa em que a mochila chega pesada e a atenção chega cansada. No fim do dia, há quem consiga abrir um livro e ficar ali, no silêncio que a leitura pede. E há quem só consiga o “tamanho de um post”, porque a escola não puxou, a família não conseguiu, a tela ganhou, ou tudo isso junto. O estudo joga luz nessa diferença e mostra que ela aparece no boletim.

📚 O que os números mostram no Pisa

A análise compara o tamanho do texto mais longo lido no ano letivo com o desempenho dos estudantes na avaliação internacional. O Pisa é aplicado a alunos de 15 e 16 anos e mede competências em leitura, matemática e ciências.

No grupo que disse ter lido textos com mais de 100 páginas, 29% atingiram pelo menos o nível 4 de proficiência em leitura. Já entre os estudantes que afirmaram que o texto mais longo do ano tinha uma página ou menos, só 5% chegaram ao mesmo patamar.

A diferença também aparece quando a régua muda: em vez de olhar só leitura, a análise observa quem alcança um bom nível nas três áreas de uma vez.

Perfil de leitura (texto mais longo no ano) Leitura: ao menos nível 4 Leitura + Ciências + Matemática: ao menos nível 3 Mais de 100 páginas 29% 33% Uma página ou menos 5% 6%

🧠 Por que leitura “puxa” as outras matérias

Quando a leitura vira rotina, ela faz um trabalho invisível: treina o cérebro para aguentar um raciocínio que não cabe em uma frase. Matemática e ciências pedem exatamente isso — interpretar enunciado, seguir passos, manter foco, checar se o resultado faz sentido. Quem lê pouco costuma sofrer antes mesmo de errar a conta: tropeça no texto, perde a lógica no meio, desiste cedo.

O estudo, do jeito que está descrito, não vende milagre. Ele aponta um padrão: é raro um estudante atingir níveis altos de proficiência em leitura sem ter hábito leitor. Em sala, isso se traduz no aluno que atravessa uma prova sem “se afogar” no enunciado e no aluno que, no meio da página, já está procurando o fim — não porque é preguiçoso, mas porque não foi treinado para sustentar a atenção.

“É raro um estudante atingir níveis elevados de proficiência em leitura sem ter um bom hábito leitor”, aponta o estudo.

🇧🇷 Brasil no retrato: pouco texto longo, muita consequência

Entre os 79 países avaliados no Pisa 2018, o Brasil aparece como o país com maior índice de estudantes que disseram que o texto mais longo lido no ano tinha uma página ou menos: 19,6%. Nos países da OCDE, a média é 5,5%.

Na América do Sul, o recorte também chama atenção: o Brasil tem o menor índice de estudantes que declararam ter lido mais de 100 páginas no ano, com 9,5%. No mesmo levantamento, o Chile aparece com 64%, enquanto Argentina registra 25,4% e a Colômbia, 25,8%.

💼 O elo com renda e emprego juvenil

O estudo ainda faz um cruzamento com indicadores sociais e econômicos: ao observar respostas de questionários do Pisa de 2000 e 2009 e relacionar com PIB per capita e desemprego entre jovens de 15 a 24 anos, a análise aponta que países com maior PIB per capita e menor desemprego juvenil tendem a ter jovens com melhor hábito leitor.

A hipótese colocada é direta: se os jovens leem mais e melhor, podem se preparar melhor para o mercado de trabalho — e isso, em cadeia, ajuda a puxar produtividade e renda. Não é uma varinha mágica, mas é um lembrete incômodo: o país que lê pouco paga a conta em silêncio, anos depois, na forma de oportunidades menores e portas mais estreitas.

🧩 O que esse dado vira na vida real

Na prática, a notícia não é “leia e tudo se resolve”. A notícia é: a leitura longa parece estar funcionando como um tipo de musculação da mente — e quem não tem acesso a esse treino chega no Pisa (e na vida) com desvantagem.

No fim, os números não estão falando de “gosto pessoal”. Estão falando de formação. E, no Brasil, essa formação ainda parece curta demais para a quantidade de mundo que a gente exige que um adolescente enfrente.