Motoristas de aplicativo que trabalham com veículos financiados estão operando com uma diferença significativa de lucro em relação aos profissionais que utilizam carros quitados. Um levantamento realizado pela GigU mostrou que, em alguns estados, a distância entre os dois modelos ultrapassa R$ 13 por hora trabalhada, pressionando a renda mensal de quem depende dos aplicativos como principal fonte de sustento.
Os dados foram levantados em fevereiro com base em informações autodeclaradas por 66.576 motoristas de aplicativo espalhados por todos os estados brasileiros. O estudo analisou custos operacionais, margem de lucro e rendimento líquido por hora tanto para carros quanto para motocicletas usadas em plataformas de transporte e entrega.
No Espírito Santo, motoristas que trabalham com carro próprio e quitado registraram lucro médio de R$ 23,35 por hora. Já aqueles que utilizam veículos financiados ficaram em R$ 13,09. A diferença de R$ 10,26 por hora representa mais de R$ 2 mil ao longo de uma jornada mensal de 200 horas.
O mesmo padrão apareceu no Ceará. Segundo o levantamento, motoristas com carro quitado alcançaram lucro médio de R$ 18,34 por hora, enquanto profissionais com financiamento registraram R$ 9,07. No fim do mês, a perda ultrapassa R$ 1.800, valor próximo ao de uma parcela de financiamento em muitos casos.
Em São Paulo, considerado o maior mercado de mobilidade urbana do país, motoristas da região metropolitana que utilizam veículos quitados operam com margem média de 58% e lucro de R$ 20,73 por hora. Entre os financiados, a margem cai para 42,7%, com rendimento médio de R$ 17,08.
| Estado | Carro quitado | Carro financiado |
|---|---|---|
| Espírito Santo | R$ 23,35/h | R$ 13,09/h |
| Ceará | R$ 18,34/h | R$ 9,07/h |
| São Paulo | R$ 20,73/h | R$ 17,08/h |
| Minas Gerais | R$ 20,64/h | R$ 12,36/h |
| Paraná | R$ 20,84/h | R$ 13,38/h |
Segundo a GigU, a principal diferença aparece no peso dos custos fixos mensais. Motoristas que trabalham com veículos financiados operam com despesas totais entre R$ 3.800 e R$ 5.100 por mês. Entre os donos de carros quitados, os custos variam entre R$ 1.200 e R$ 2.900.
Além das parcelas, entram na conta gastos com combustível, manutenção, seguro, pneus e depreciação. Em muitos casos, parte relevante da renda diária acaba direcionada para cobrir despesas do veículo antes mesmo de gerar lucro efetivo para o motorista.
“O financiamento reduz diretamente a margem operacional do motorista e aumenta a pressão por jornadas mais longas”, aponta o levantamento da GigU.
O estudo mostra que o impacto não se limita aos carros usados em aplicativos de transporte. Entre motociclistas que atuam em entregas, o cenário se repete.
No Ceará, entregadores com moto própria registraram lucro médio de R$ 17,33 por hora, enquanto aqueles com motocicletas financiadas ficaram em R$ 8,85. No Paraná, a renda caiu de R$ 20,93 para R$ 10,64 por hora entre os dois modelos analisados.
Segundo Oglobo, o estudo foi realizado em fevereiro e utilizou dados fornecidos pelos próprios motoristas e motociclistas cadastrados na plataforma da GigU. A pesquisa analisou profissionais de diferentes perfis e regiões do país, incluindo capitais e áreas metropolitanas onde o transporte por aplicativo concentra parte relevante da atividade econômica ligada à mobilidade urbana.