Anatel intensificou o cerco às ligações abusivas após a explosão de chamadas automáticas que caem em segundos, repetem o mesmo padrão ao longo do dia e transformam o telefone — inclusive no painel do carro — em fonte de interrupção constante. Para quem dirige, o incômodo ganha uma consequência prática imediata: o toque insistente vira distração no trânsito e empurra o motorista a olhar a tela na pior hora.
Quem passa o dia na rua sabe o roteiro: o celular vibra no suporte, você pensa que é cliente, oficina, escola, entrega. Atende. Silêncio. Cai. Dois minutos depois, de novo. Esse “pingue-pongue” não é só irritante; ele invade momentos em que o telefone deveria servir como ferramenta, não como armadilha. E quando o número aparece com cara de normal — DDD da sua região, sequência “limpa”, sem cara de spam — a chance de atender aumenta.
A engrenagem principal atende por um nome pouco simpático: discadores automáticos, as robocalls. Eles disparam em massa para testar se um número está ativo, mapear horários em que a pessoa atende, atualizar listas e, em alguns casos, induzir retorno da ligação. A própria Anatel descreve medidas cautelares focadas em “chamadas curtas” e no bloqueio de quem usa a rede de forma inadequada, justamente para frear esse comportamento repetitivo.
Se a conversa começa com “benefício”, “revisão”, “liberação” ou “empréstimo”, a prudência precisa ser automática. O INSS já publicou alertas dizendo que não entra em contato por telefone/mensagem para procedimentos como prova de vida e que não solicita dados pessoais, senhas ou transferências; em outro comunicado, reforça que não oferece consignado por ligação, WhatsApp ou e-mail. O golpe, quase sempre, vem com urgência fabricada e pedido de confirmação de dados.
A chamada curta é o “dedo duro” do robô: toca, alguém atende, o sistema encerra porque não há atendente disponível ou porque o objetivo era só marcar o número como ativo. Em 2022, o governo federal comunicou a obrigação do prefixo 0303 para telemarketing ativo como tentativa de facilitar a identificação; o tema voltou ao debate ao longo do tempo, justamente porque parte do abuso opera fora do telemarketing “formal” e troca de numeração como quem troca de máscara.
O combate virou uma corrida de resistência. Em prestação de contas e notícias do setor, aparecem números que ajudam a dimensionar o tamanho do problema e a resposta das operadoras/autoridade reguladora.
Dado Período Empresas bloqueadas por regras contra chamadas abusivas: 1.116. jun/2022 a abr/2025. Chamadas inoportunas bloqueadas na rede monitorada: 184,9 bilhões. jun/2022 a dez/2024.:contentReference[oaicite:7]{index=7}
O caminho mais simples e subestimado continua sendo o cadastro no Não Me Perturbe, que permite solicitar bloqueio de chamadas de telemarketing de prestadoras de telecom e instituições financeiras participantes. A plataforma existe desde 2019 para telecom, com expansão do escopo ao longo do tempo, e costuma reduzir bastante o volume de ofertas insistentes — sem prometer milagre contra golpistas.
Para a denúncia “pegar”, detalhe importa. Um histórico bem montado costuma falar mais alto do que desabafo.
Quando o problema envolve oferta abusiva e insistência, o Procon costuma ser o caminho mais direto para enquadramento e pressão. Se for banco/financeira, vale incluir o Banco Central do Brasil no circuito de reclamação, porque esse tipo de registro pesa na fiscalização. Em temas de telecom e regras de bloqueio, a própria Anatel concentra orientações e medidas contra chamadas abusivas.
Se aparecer consignado, benefício, “atualização” ou “confirmação” de dados, trate como risco alto e encerre. O INSS é direto: não peça dados, não confirme senhas, não autorize nada por telefone. O caminho seguro é você procurar o canal oficial por conta própria, sem clicar, sem retornar ligação “misteriosa”, sem aceitar atalho.